Léxico Familiar, Natalia Ginzburg (Relógio d'Água)
"Recebi uma carta da
minha mãe. Estava também ela, assustada e não sabia como ajudar-me. Pensei
então, pela primeira vez na minha vida, que não havia para mim outra proteção
possível, que teria de arranjar-me sozinha. Compreendi que houvera sempre em
mim, no meu afeto pela minha mãe, a impressão de que ela, nas adversidades, me
protegeria e defenderia. Mas agora, em mim, restava somente o afeto, e
desaparecera desse afeto todo o pedido e toda a expetativa de proteção, e eu
pensava que talvez devesse ser eu no futuro a protegê-la e a defendê-la, porque,
doravante, ela, a minha mãe, estava muito velha, abatida e indefesa." (pg.
146)
Num texto que designou de
Advertência, a Autora, Natalia Ginzburg (apelido de casada) explica que
"Lugares, factos e pessoas são, neste livro, reais. Não inventei nada, e
sempre que na esteira do meu velho costume de romancista, inventava, sentia-me
imediatamente impelida a destruir quanto inventara (...) Escrevi somente aquilo
de que me lembrava."
Confesso que gosto muito
de ler livros que contam histórias de pessoas ou famílias, como é o caso de
Léxico Familiar, mas surpreendeu-me a ênfase dada a alguns assuntos em
detrimento de outros. Por exemplo, Leone Ginzburg, com quem se viria a casar e
que era amigo do seu irmão Mario, é-nos apresentado através de uma conversa entre os
pais, em que a mãe o descreve como um homem cultíssimo, inteligentíssimo e o
pai contrapõe referindo que é muito feio. Mais à frente, fala no trabalho de
Leone, no seu gosto pela poesia, pela filologia e pela história, mas também
pelos mexericos fúteis. Depois de ter estado preso e sem falar sobre os
sentimentos de um e de outro, escreve: "Casámo-nos, Leone e eu, e fomos
viver para a casa da Via Pallamaglio. " (pg. 117). Contudo, na mesma página, é capaz
de descrever pormenorizadamente as conversas entre a mãe e a costureira e os
fatos que a mãe manda fazer.
Mais tarde refere nova prisão de Leone e, tanto quanto me recordo, não
fala mais nele. Diz apenas que tornara a casar-se e o marido dava aulas em
Roma. Por curiosidade li depois que em 1943, Leone foi preso pela polícia
italiana, levado para a seção alemã da prisão Regina Coeli, tendo morrido no
início de 1944 devido à violência das torturas sofridas. Da mesma forma,
enquanto fala dos pais, dos irmãos ou dos amigos, refere em poucas linhas a
situação vivida em Itália, como se o peso das conversas quotidianas e
familiares fosse mais determinante que os dramas vividos na sua vida pessoal
e no país.
Como referi, há excertos lindíssimos no livro e com os quais me
identifiquei. Um dos quais prende-se com o título do livro:
“Somos cinco irmãos. Vivemos em cidades diferentes, alguns de nós no
estrangeiro, e não nos escrevemos muitas vezes. Quando nos encontramos, podemos
ser, uns para os outros, indiferentes ou distraídos. Mas basta, entre nós, uma
palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma dessas frases antigas, ouvidas e repetidas
infinitas vezes, no temo da nossa infância. Basta dizermos:” Não vimos a
Bérgamo para passear” ou “a que é que fede o ácido sulfídrico”, para redescobrirmos
no mesmo instante as nossas relações de outrora, e a nossa infância e a nossa juventude,
indissoluvelmente ligadas a essas frases, a essas palavras. Uma dessas frases
ou palavras faria que nos reconhecêssemos mutuamente, como os irmãos que somos,
na escuridão de uma gruta, entre milhões de pessoas. Essas frases são o nosso
latim, o vocabulário dos nossos dias idos, são, como os hieróglifos dos
egípcios ou dos assírio-babilónicos, o testemunho de um núcleo vital que deixou
de existir, mas que sobrevive nos seus textos, salvos das fúrias das águas, da
corrosão do tempo. Essas frases são o fundamento da nossa unidade familiar, que
subsistirá enquanto estivermos no mundo, recriando-se e ressuscitando nos
pontos mais diversos da terra, quando um de nós disser “Ilustre signor Lipmann”,
e ressoar então nos nossos ouvidos a voz impaciente do meu pai: "- Deixa lá essa
história! Quantas vezes não a ouvi já!” (pg. 26)

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