Léxico Familiar, Natalia Ginzburg (Relógio d'Água)

Léxico Familiar

      Ainda me divido quanto a este livro. Não conseguia parar de o ler, mas por vezes perdia-me entre os nomes dos irmãos e dos amigos, nas 191 páginas sem capítulos e sem datas que ajudem o leitor a situar-se. Mas há momentos belíssimos em termos de escrita e com os quais me identifiquei:

    "Recebi uma carta da minha mãe. Estava também ela, assustada e não sabia como ajudar-me. Pensei então, pela primeira vez na minha vida, que não havia para mim outra proteção possível, que teria de arranjar-me sozinha. Compreendi que houvera sempre em mim, no meu afeto pela minha mãe, a impressão de que ela, nas adversidades, me protegeria e defenderia. Mas agora, em mim, restava somente o afeto, e desaparecera desse afeto todo o pedido e toda a expetativa de proteção, e eu pensava que talvez devesse ser eu no futuro a protegê-la e a defendê-la, porque, doravante, ela, a minha mãe, estava muito velha, abatida e indefesa." (pg. 146)

    Num texto que designou de Advertência, a Autora, Natalia Ginzburg (apelido de casada) explica que "Lugares, factos e pessoas são, neste livro, reais. Não inventei nada, e sempre que na esteira do meu velho costume de romancista, inventava, sentia-me imediatamente impelida a destruir quanto inventara (...) Escrevi somente aquilo de que me lembrava." 

    Confesso que gosto muito de ler livros que contam histórias de pessoas ou famílias, como é o caso de Léxico Familiar, mas surpreendeu-me a ênfase dada a alguns assuntos em detrimento de outros. Por exemplo, Leone Ginzburg, com quem se viria a casar e que era amigo do seu irmão Mario, é-nos apresentado através de uma conversa entre os pais, em que a mãe o descreve como um homem cultíssimo, inteligentíssimo e o pai contrapõe referindo que é muito feio. Mais à frente, fala no trabalho de Leone, no seu gosto pela poesia, pela filologia e pela história, mas também pelos mexericos fúteis. Depois de ter estado preso e sem falar sobre os sentimentos de um e de outro, escreve: "Casámo-nos, Leone e eu, e fomos viver para a casa da Via Pallamaglio. " (pg. 117). Contudo, na mesma página, é capaz de descrever pormenorizadamente as conversas entre a mãe e a costureira e os fatos que a mãe manda fazer.

    Mais tarde refere nova prisão de Leone e, tanto quanto me recordo, não fala mais nele. Diz apenas que tornara a casar-se e o marido dava aulas em Roma. Por curiosidade li depois que em 1943, Leone foi preso pela polícia italiana, levado para a seção alemã da prisão Regina Coeli, tendo morrido no início de 1944 devido à violência das torturas sofridas. Da mesma forma, enquanto fala dos pais, dos irmãos ou dos amigos, refere em poucas linhas a situação vivida em Itália, como se o peso das conversas quotidianas e familiares fosse mais determinante que os dramas vividos na sua vida pessoal e no país.

    Como referi, há excertos lindíssimos no livro e com os quais me identifiquei. Um dos quais prende-se com o título do livro:

     “Somos cinco irmãos. Vivemos em cidades diferentes, alguns de nós no estrangeiro, e não nos escrevemos muitas vezes. Quando nos encontramos, podemos ser, uns para os outros, indiferentes ou distraídos. Mas basta, entre nós, uma palavra. Basta uma palavra, uma frase: uma dessas frases antigas, ouvidas e repetidas infinitas vezes, no temo da nossa infância. Basta dizermos:” Não vimos a Bérgamo para passear” ou “a que é que fede o ácido sulfídrico”, para redescobrirmos no mesmo instante as nossas relações de outrora, e a nossa infância e a nossa juventude, indissoluvelmente ligadas a essas frases, a essas palavras. Uma dessas frases ou palavras faria que nos reconhecêssemos mutuamente, como os irmãos que somos, na escuridão de uma gruta, entre milhões de pessoas. Essas frases são o nosso latim, o vocabulário dos nossos dias idos, são, como os hieróglifos dos egípcios ou dos assírio-babilónicos, o testemunho de um núcleo vital que deixou de existir, mas que sobrevive nos seus textos, salvos das fúrias das águas, da corrosão do tempo. Essas frases são o fundamento da nossa unidade familiar, que subsistirá enquanto estivermos no mundo, recriando-se e ressuscitando nos pontos mais diversos da terra, quando um de nós disser “Ilustre signor Lipmann”, e ressoar então nos nossos ouvidos a voz impaciente do meu pai: "- Deixa lá essa história! Quantas vezes não a ouvi já!” (pg. 26)

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