sábado, 13 de maio de 2017

Na pele de uma jihadista, Anna Erelle (Objetiva)

 
  Na pele de uma jihadista lê-se de um fôlego. Na Primavera de 2014, uma jornalista cria um perfil falso, o de uma jovem convertida ao Islão, para investigar a rede de recrutamento do Estado Islâmico. É surpreendente a facilidade com que é contactada,  a estratégia que é utilizada e que aparentemente funcionou com centenas de jovens que foram aliciadas e abandonaram tudo para se juntarem à jihad na Síria. 
    O perfil falso tem um nome - Mélanie Nin - e a fotografia de perfil é uma imagem da princesa Jasmine da Disney. É com esse perfil que divulga o vídeo de Abu Bilel, um jihadista francês de cerca de 35 anos, que exibe o inventário do seu 4 x 4. Nesse mesmo dia recebe várias mensagens do próprio que  começa por lhe perguntar se ela está a pensar ir para a Síria. A partir daí vive uma situação quase esquizofrénica, assumindo ao final do dia a personalidade de Mélanie e colocando o véu para falar com Abu pelo skype, atirando depois o véu para um canto quando desliga a câmara. E se no início estas mudanças eram fáceis e risíveis até, a dado passo começam a pesar muito à própria e a quem a acompanha neste processo - o fotógrafo e, ocasionalmente, o namorado.
    Surpreendente é a imagem de Abu Bilel, o cuidado com o visual e o gosto por objetos de marca, utilizando, contudo, uma retórica anticapitalista. O assédio a Mélanie aumenta progressivamente tornando-se quase opressivo e varia entre indicações sobre como ela será recebida e deverá comportar-se e perguntas de foro íntimo, quase voyeuristas. 
    Embora a intenção fosse fazer a viagem até à fronteira, onde seria tirada uma fotografia a Mélanie, de costas, com que acabaria o artigo, tal não é possível. Este facto não inviabiliza a  publicação do artigo nem, mais tarde, do livro, que levaram a que a autora fosse declarada inimiga do Islão.
   
   Anna Erelle antes tinha feito trabalhos de investigação sobre algumas destas jovens, contactando as famílias, visitando as casas onde habitavam e especialmente os quartos mantidos intactos. Surpreende muito a facilidade com que estas jovens deixam tudo para trás e escolhem ir viver num país em guerra, trocando t-shirts por burkas e kalashnikovs. Será como ela refere porque é fácil ir atrás destas miúdas que não tiveram acesso a uma educação sólida, nem a uma certa forma de cultura? Bastaria alterar estes vectores para inverter esta situação? A dado passo refere também que afinal de contas, brincar às guerras e exibir a brincadeira é muito mais interessante do que ser o líder do bairro ou ganhar num jogo de Playstation.
    

domingo, 30 de abril de 2017

A vegetariana, Han Kang (D. Quixote)

   
  A vegetariana é um livro absolutamente inquietante e arrebatador. Ao longo da sua leitura tive impressões distintas, inicialmente pensei que esta história não poderia decorrer ou ter como cenário outro país ou outra cultura, mas noutras partes pareceu-me universal nos problemas que aborda e na forma como o faz. 
  O livro tem três partes, a primeira dá o nome ao livro, A vegetariana, e é narrada na primeira pessoa pelo marido de Yeong-hye, a segunda parte tem o título Mancha mongólica e é contada pelo cunhado e a terceira parte, Árvores flamejantes, é narrada pela irmã. Todas as partes acabam de forma inquietante, como uma espécie de clímax da parte respetiva.
    
    A protagonista, Yeong-hye, é a mulher, a cunhada, a filha, a irmã, mas nunca tem voz ativa, a não ser em pequenos diálogos, quando responde ao que lhe é perguntado. O marido descreve-a como uma pessoa banal (....sempre pensei nela como alguém que não tinha rigorosamente nada de especial.) nem atraente, nem repulsiva pelo que não havia motivo para que não se casassem. Aliás, ele próprio confessa que uma mulher bonita ou inteligente ou sensual teria acabado por perturbar a sua existência.    
    Toda a sua vida  se desmorona quando a mulher tem um sonho e se torna vegetariana. Mas esta decisão, tão comum atualmente, é sustentada exclusivamente pelo sonho que teve e é acompanhada de uma recusa de comer vários alimentos além da carne  e por um conjunto de comportamentos que indiciam que por trás daquela decisão há uma perturbação maior. Neste capítulo há uma cena particularmente violenta quando a família de Yeong-hye se reúne em casa da irmã, em que para além do marido e dos pais, estão os irmãos, os cunhados e os sobrinhos. Percebemos então que o pai é uma pessoa extremamente violenta e que Yeong-hye sofreu muito durante a infância.
    O cunhado, um artista que estava inativo nos últimos anos, fica fascinado pela mancha mongólica que sabe que a cunhada tem, começa a imaginar obsessivamente o corpo dela coberto de flores e ela acede ao seu desejo de o pintar e filmar. Na terceira parte, já só a irmã a visita na instituição onde está internada e aí percebemos que o desejo dela é tornar-se vegetal. Uma árvore.
    O livro tem uma cinta que num dos lados indica que foi o romance vencedor do Man Booker International Prize e, do outro lado, tem um comentário de Ian McEwan, escritor que muito aprecio, que considera este livro um pequeno romance sobre sexualidade e loucura que merece todo o sucesso que alcançou. Eu penso que é sobretudo um romance sobre a loucura versus normalidade e como o espaço que os separa é tão estreito. Aliás, a irmã de Yeong-Hye diz-lhe já no final:
     Sabes, eu também tenho sonhos. Sonhos....e também podia deixar-me dissolver neles, deixar que eles tomassem conta de mim.... Mas tenho a certeza de que há mais coisas além dos sonhos. A certa altura, temos de acordar, não é?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Deus não mora em Havana, Yasmina Khadra (Bizâncio)

   
    Mais um livro de Yasmina Khadra, desta feita passado em Havana, Cuba. Embora num cenário e num contexto distintos, encontro várias similitudes com o livro anterior que li deste autor: Os Anjos Morrem das Nossas Feridas. 
    Em ambos os livros, as personagens principais apesar de terem carreiras distintas dependem do público. Neste último encontramos Dom Fuego, um cantor de muito sucesso mas que, apesar do virtuosismo, nunca conseguiu interessar um letrista ou compositor a criar uma canção para ele. Naquele outro, a personagem central é Turambo, um boxeur. Também de comum nas duas histórias, uma paixão imensa por uma mulher. 
    O livro inicia-se com uma apresentação de Dom Fuego que depois de atuar mais uma vez no Buena Vista Café é informado que este foi comprado por uma gaja de Miami no âmbito de uma privatização decidida pelo Partido.
    Dom Fuego esforça-se por encontrar alternativas para atuar mas sem sucesso durante os primeiros tempos e é então que vamos conhecendo o mosaico de pessoas que o rodeiam, em particular a família e o amigo Panchito. 
(...) Sem música, não sou mais que um eco anónimo lançado ao vento. Já não tenho veias, nem, portanto, sangue; já não tenho ossos que me mantenham de pé, nem rosto para esconder.

    À noite Don Fuego passeia-se e não lhe apetece regressar a casa pois receia acordar o cunhado, Javier, que, com frequência ameaçava expulsar todos de casa pelo que opta por se estender no banco de fundo de um eléctrico abandonado. Mas um dia descobre que uma rapariga deslumbrante se encontra lá escondida porque, como ela lhe explica, não tem para onde ir. A pouco e pouco vai-se criando uma relação de confiança entre ambos, até que um dia a descobre ferida depois de ter sido atacada e provavelmente violada. Leva-a para casa da irmã que a recebe e cuida dela, mas quer ele, muitos anos mais velho, quer o seu sobrinho se apaixonam por ela
    A paixão de Don Fuego por Mayensi leva-o a deixar a casa da irmã e a arranjar uma casa onde vivem os dois, recomeçando ele a atuar, mas este período idílico dura pouco tempo.
    Se há traços comuns nos dois livros, como referi, a diferença é que neste a relação entre Don Fuego e Mayensi é redentora para ambos. Don Fuego integra um grupo musical que tem um enorme sucesso com a canção Don Fuego, cuja letra fora escrita por Mayensi e como ele não desiste de a procurar, termina por a encontrar e perceber que ela abandonou os fantasmas do passado.
    Apesar de gostar da história, há uma densidade nos outros livros que li deste autor, em particular nas personagens, que não encontro neste. Sobretudo a personagem feminina Mayensi, cuja história adivinhamos mais que sabemos mas  sentimos que muito fica por dizer.
    

O meu nome é Lucy Barton, Elizabeth Strout (Alfaguara)


    Gostei muito deste livro. Li-o num dia! Num dia de trabalho. Foi um daqueles livros que, cada minuto disponível, consumi-o com a leitura. É um livro muito simples e bonito. Aliás, creio que é a sua simplicidade que lhe confere a beleza.

    A história é narrada por Lucy Barton que, na sequência de uma operação ao apêndice, tem de ficar nove semanas internada no hospital, por uma infeção que os médicos não conseguem localizar.
    Durante este período, a mãe de Lucy aparece uma noite, e fica outras quatro ao lado da filha. Havia anos que não se viam e mal se falavam. Ao longo dessas cinco noites e quatro dias, a mãe de Lucy mantém-se sentada no cadeirão ao lado da cama da filha, recusando a maca que as enfermeiras se oferecem para disponibilizar, e fala-lhe de vários casamentos falhados de amigos e conhecidos. Lucy recebe estas histórias com grande alegria no coração, por ter a sua mãe a seu lado, enquanto luta por sufocar tudo aquilo que levou ao seu afastamento do resto da família.


    Esta é uma história sobre amor (...). Esta é a história de uma mulher (...) que entra no quarto de hospital da filha e fala compulsivamente sobre os casamentos malogrados de toda a gente e que não sabe, não tem a menor ideia, do que está a fazer. Esta é a história de uma mãe que ama a sua filha. De modo imperfeito. Porque todos nós amamos de forma imperfeita.

    E não resisto a partilhar aquela que, para mim, é a passagem mais bonita do livro:

    Acho que não pensava que ia morrer. Acho que não pensava em nada, era só pânico, perceber que ninguém viria, e ver o céu ficar escuro e sentir o frio instalar-se. Gritava sem parar, de todas as vezes. Chorava até já quase mal conseguir respirar, (...) De vez em quando, vejo uma criança chorar com o mais profundo desespero e (...) quase sinto, nessas ocasiões, que consigo ouvir o som do meu coração a partir-se, do mesmo modo que conseguia ouvir, ao ar livre - quando as condições eram as ideais -, o milho a crescer nos campos da minha juventude. Já conheci muitas pessoas (...) que me disseram que não é possível ouvir o milho a crescer, mas estão enganadas. Não é possível ouvir o meu coração a partir-se, e eu sei que essa parte é verdade, mas, para mim, são inseparáveis, o som do milho a crescer e o som do meu coração a partir-se.



---------------- ADENDA - 26 abr 2017 ----------------

    Foi com alegria que descobri que a autora decidiu explorar um pouco mais das histórias partilhadas por Lucy e a sua mãe, enquanto nos desvenda um pouco mais sobre aquela personagem. Terminei de ler este livro com a sensação de que havia muito potencial por explorar, e com muita vontade de conhecer melhor Lucy e a sua família - parece que  não fui a única! O livro tem publicação prevista para 4 de maio de 2017, com o título (original) "Anything is Possible" ("Tudo é possível").


Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski (Civilização Editora)


    Confesso - antes de qualquer outra coisa que possa escrever - que estou com algum receio de fazer esta crítica. 
    Tinha decidido que seria este ano que me iniciaria nos clássicos russos. E "Crime e Castigo" é um daqueles clássicos. Russo também, sim. Mas essa parte até se dispensaria. É um clássico da literatura, daqueles que ouvimos falar toda a nossa vida. Eu, pelo menos, ouvi. Sem sequer saber muito bem do que tratava. Então, há umas semanas, fui jantar com dois amigos, ela do Cazaquistão, ele da Croácia, e, quando passámos para o tema dos livros - não me recordo já como nem porquê - ambos me olharam como se eu fosse um bicho estranho ('Como assim, nunca leste "Crime e Castigo"? Tens de ler!'). Pareceu-me o momento certo. Assim que terminei o que estava a ler anteriormente ("The White Princess"), peguei no "Crime e Castigo", uma versão muito antigo que esse meu amigo me tinha emprestado e que acabei por trocar por esta de 2015, da Civilização Editora, por medo de estragar o primeiro (e porque, convenhamos, gosto de ter os livros que leio).
     A única ideia que tinha do livro era a seguinte: um estudante comete um assassínio (crime) e tem de conviver com o tormento psicológico que daí advém (castigo). E várias pessoas - incluindo essa minha amiga e a minha avó me disseram que era um livro duro, que mexia bem fundo connosco e com os recônditos mais obscuros da nossa alma. E é por isso que, agora, tenho algum receio da crítica que vou fazer.
    Em primeiro lugar, fiquei um pouco desapontada com o livro. Estava a contar com uma maior exploração do interior das personagens. Em segundo lugar, não me identifiquei minimamente com o personagem principal - Raskolnikoff - tendo-o para mim como uma das personagens mais irritantes e odiosas com que já "travei conhecimento".
    Depois de meses a debater-se com a possibilidade de perpetrar o crime, o ex-estudante (decidira deixar de frequentar as aulas na universidade) decide-se finalmente a matar uma velha penhorista, onde havia já empenhado alguns pertences, a fim de a roubar. Não deixamos de estranhar que esta decisão seja tomada depois de receber uma missiva da mãe que, além de lhe enviar dinheiro, lhe comunica que ela e a irmã dele vão mudar-se para perto, a fim de celebrar o casamento da jovem com um homem de posses. Compreendemos mais tarde que o móbil do crime não foi exatamente o dinheiro - mas não entrarei em detalhes para quem queira ler o livro, a não ser que essa é a parte mais interessante, ainda que, como disse acima, sentisse que poderia ter sido mais explorada. 
    O ato é totalmente premeditado e, no entanto, não corre como planeado porque aparece em casa a irmã da velha senhora, que acaba também por morrer às mãos de Raskolnikoff. Na sequência do crime, o ex-estudante cai doente, possivelmente com um esgotamento nervoso que não melhora por se sentir constantemente perseguido, provocando os agentes da autoridade e debatendo-se se deverá entregar-se à justiça ou não. No entanto, nem por um momento mostra o menor sinal de arrependimento.

   "A velha não significa nada", pensava, exaltado, arrebatado pela cólera, (...) "A velha não foi mais do que um acidente... O que eu pretendia era dar o salto o mais breve possível... Não foi uma criatura humana que matei, foi um princípio! Efetivamente, matei o princípio, mas não soube passar por cima dele e fiquei do lado de cá... Apenas soube matar... E, ainda assim, parece que não foi muito bem... (...) Não, eu não tenho senão uma vida , não estou para esperar a 'felicidade universal'. Quero viver para mim próprio, de outra maneira não vale a pena existir". 

    O livro deve, de facto, ser lido - não quero que se confunda a minha irritação com o personagem com irritação com o romance. Foi um livro que, depois de ler e até agora, me fez sentir necessidade de o debater - e isso é, em meu entender, excelente!

Enamoramento e Amor, Francesco Alberoni (Bertrand Editora)

    Há muitos anos, já, a minha mãe estendeu-me este livro, dizendo que era "um daqueles livros que toda a gente lia na [sua] adolescência". Folheei-o uma ou duas vezes, mas nunca cheguei a decidir-me lê-lo de uma ponta à outra - até agora.
    O texto é muito bonito; está escrito com uma prosa quase poética e tem passagens absolutamente apaixonantes, que não resisti a "roubar", como:

    Eu sou por isso o abslutamente único e ele o absolutamente único, não fungível com nenhum outro nem com coisa alguma. Cada pormenor, todos os pormenores da sua voz, do seu corpo, do seu gesto, se tornam os significantes desta unicidade. Aquele pormenor, aqueles pormenores, existem nela, somente nela, em nenhuma outra pessoa do mundo; ela é extraordinariamente única e extraordinariamente diferente e o assombro do amor é encontrar resposta deste ser tão único e tão ele próprio como nenhum outro.

    O autor explora a temática do enamoramento, procurando explicar os fenómenos psicológicos que ocorrem quando nos apaixonamos e como esse acontecimento nos afeta e àqueles que nos rodeiam. Um dos principais focos é o estado de espírito que considera requisito essencial para que uma pessoa possa chegar àquilo que designa como estado nascente de um enamoramento. Fá-lo, comparando esta predisposição à que se verifica quando um indivíduo adere a uma organização ou revolução. Aliás, para o autor, o enamoramento mais não é do que esta adesão mas a uma única pessoa:

    O que é o enamoramento? É o estado nascente de um movimento coletivo a dois.
    (...)
    O enamoramento não é um fenómeno quotidiano, uma sublimação da sexualidade ou um capricho da imaginação, nem tão-pouco um sentimento sui generis inefável, divino ou diabólico, antes pode ser inserido numa classe de fenómenos já conhecidos, os movimentos coletivos (...), como a reforma protestante, o movimento estudantil, o feminista (...), é um caso especial de movimentos coletivos, e entre estes e o enamoramento  há um parentesco muito próximo, muitas das experiências de solidariedade , alegria de viver, renovação são análogas.

    Confesso que não adorei a definição dada, nem esta comparação em particular. Ainda assim, compreendo que qualquer tentativa para explicar este tema, resultará sempre numa análise muito reducionista daquilo que entendo ser, para cada um de nós que se apaixona (de cada vez que se apaixona), uma das experiências mais complexas, incompreensíveis e absolutamente envolventes que vivenciamos.

domingo, 23 de abril de 2017

Leituras com borboleta

     O que pode acontecer quando vamos ler para um jardim? Uma deslumbrante borboleta pousa na capa. Aguardamos que parta para abrir o livro, o que leva algum tempo. Passeia-se entre as letras e as imagens e só depois levanta voo, para regressar quando abrimos o livro e pousar de novo numa das páginas. Passa de uma página para a outra, levantando voo mas regressando sempre, até que se fez tarde e começou a estar frio e lentamente, para não a assustar, fechei o livro depois de ela levantar voo, guardei-o no saco e vim-me embora.