sexta-feira, 7 de julho de 2017

Os Interessantes, Meg Wolitzer (Teorema)

    Este romance acompanhou-me durante os últimos dois meses. Surpreendi-me ao aperceber-me disto porque geralmente vou arrastando as leituras que não me despertam o interesse - o que não foi o que aconteceu neste caso. Gostei muito deste livro. Creio que porque conta estórias banais, de pessoas normais que poderíamos ser nós, os nossos amigos e conhecidos. Como tal, não há talvez uma trama que nos mantenha totalmente absorvidos porque precise de ser destrinçada (e entendo que isso para muitos seja dissuasor da leitura) mas antes, cada vez que abria o livro, sentia-me a reencontrar os meus velhos amigos nas suas páginas: a Jules, a Ash, o Ethan, o Jonah, o Dennis.
    Apesar de seguirmos um pouco as estórias de todos eles, o foco maior é sobre Jules. Julie, quando o romance começa, que integra o campo de férias no âmbito das artes, Spirit-in-the-Woods, por ter conseguido uma bolsa, e onde conhece o grupo de amigos que fará parte do resto da sua vida - Os Interessantes. No fundo, são jovens que se crêem artistas e que esperam de si mesmos grandes feitos, em diferentes áreas: teatro, animação, música, dança. E no entanto, como quase tudo o que planeamos para as nossas vidas, quase nenhum deles alcança esse sonho. 

    Em breve, ela e os outros seriam irónicos durante grande parte do tempo, incapazes de responderem a uma pergunta inocente sem carregarem as palavras com um pequeno ajuste mordaz. Passado relativamente pouco tempo, a mordacidade haveria de se atenuar, a ironia misturar-se-ia com a seriedade e os anos encurtar-se-iam e voariam. Depois não faltaria muito para que todos se sentissem chocados e tristes por terem crescido por completo e chegado às pessoas adultas mais densas e finalizadas que eram, praticamente sem hipótese de se reinventarem.

    Não é, no entanto, um livro triste ou amargo. Não se trata de um retrato de pessoas revoltadas ou desiludidas com a vida. Também passa por aí; todos passamos. Mas é mais do que isso. É um livro sobre a vida, sobre como o mundo à nossa volta vai girando sem se vergar às nossas vontades e como temos de ser nós adaptar-nos (e conseguimos!). Sobre como tanto do que somos, do que nos move, do que aspiramos, guardamos para nós mesmos, escondemos dos outros, mesmo dos que nos são mais íntimos. E é também como, na realidade, não mudamos assim tanto desde que somos crianças e, pelo contrário, mantemos sempre em nós, mais ou menos acesos, os mesmos desejos, os mesmos traumas, a mesma busca incessante ("...faz tudo o que faz de ti quem és. (...) É tudo o que temos, não é? Que mais existe, para além de basicamente construirmos coisas até ao dia em que morrermos?"). Por fim, é um livro sobre amizade - sobre aqueles amigos que nos acompanham por toda a vida, que crescem connosco e se moldam connosco, que nos marcam e constituem, na realidade, mais um pedaço de nós.

quarta-feira, 5 de julho de 2017

Apaixonados por Livros

    No Centro Comercial de Alvalade há um pequeno stand de livros, pelo qual passo todos os dias, no meu caminho de ou para o escritório. Nunca lá parara antes de hoje. Percorria sempre as capas com os olhos, mas controlava a vontade de parar, primeiro porque trazia sempre um livro comigo, e depois porque gosto de levar o meu tempo a vaguear pelos livros, sem me sentir pressionada a comprar ou mirada pelos vendedores.

    Mas hoje acabei o livro que estava a ler (“Os Interessantes”, de Meg Wolitzer) e, antecipando o momento em que apanharei o metro de regresso a casa, sem ter o que ler, decidi ver se algum livrinho pequeno me chamava a atenção.

    E então parei. E já tinha na mão um livro do Primo Levi, preparando-me para ler a contracapa, quando a menina que estava naquele momento do Stand veio ter comigo para me informar que os livros estavam com 10% de desconto. Perguntou se precisava de ajuda e eu comentei com simplicidade que estava apenas a ver se havia algum livro pequenino interessante porque tinha terminado o meu de manhã e não tinha o que ler no regresso a casa. A cara dela iluminou-se e exclamou “Como percebo o que quer dizer! O que gosta de ler?”. Respondi, e então informou-me que as prateleiras que estavam à nossa frente tinham livros acabados de chegar do Brasil, muito bons. Era brasileira. Começou a procurar no meio dos volumes os autores de que mais gostava e livros que já lera. Aceitei de bom grado os conselhos dela e acabei por trazer um livro de contos de Paulo Henriques Britto, “Paraísos Artificiais”. Quando mo estendeu, apresentou-mo da seguinte forma “Este autor escreve maioritariamente poesia. Aqui são contos. Agora imagine, um autor de poesia a escrever prosa… consegue imaginar que as frases são lindíssimas!”.

    Depois de pagar ela pediu-me que passasse por lá quando terminasse para lhe dizer o que tinha achado do livro.


    Acho que nunca tinha sido tão bem atendida, por uma pessoa tão entusiasta e que tão visivelmente adora ler. Não podia deixar de partilhar. 😊

sábado, 1 de julho de 2017

Manual para mulheres de limpeza, Lucia Berlin (Alfaguara)

   
  O meu irmão ofereceu-me este Manual para mulheres de limpeza de que já tinha ouvido e lido críticas muito positivas. Comecei a lê-lo depois de abandonar alguns livros que tinha iniciado mas que não me apeteceu acabar. Sei que é um direito que me assiste mas que resisto a utilizar sobretudo quando se trata de livros de autores de que gosto. Vou insistindo, lendo diariamente mais umas páginas até que o substituo por outro. Este livro deu-me o álibi perfeito para abandonar aquele que estava a ler: comecei e não consegui largá-lo mais. 
    Antes de começar a ler os contos, li o Prefácio de Lydia Davis, a introdução de Stephen Emerson, que seleccionou os contos, e a nota final sobre a vida de Lucia Berlin. Este conjunto de textos permitiu-me contextualizar, perceber e sobretudo apreciar mais os contos que li depois, pela ordem que são apresentados. 
    É a primeira colectânea de contos que leio em que não fico desiludida com o fim precoce de cada história ou com  sentimento de perda por não poder acompanhar mais as personagens. E os contos são, em regra, muito curtos mas acabam na altura certa. Há desde logo qualquer coisa na forma como começam, dispensando aquele início lento e tímido que se destina a dar o necessário contexto ao leitor, que é a característica mais interessante desta autora. Alguns exemplos de inícios de  contos:

    O Jesse apanhou-me desprevenida.
    Era difícil assegurar sozinha a receção e o gabinete.
    A solidão é um conceito anglo-saxónico.

    Começamos cada conto imergindo  imediatamente no lugar, no tempo e na história que vamos ler. Não se trata apenas da forma como os contos estão escritos, mas sobretudo das histórias narradas e aí a autora tem uma imensa vantagem. Ela limita-se a contar-nos o que viveu porque na realidade teve várias vidas: exerceu diversas profissões, desde mulher de limpeza a professora universitária, criou os quatro filhos, foi alcoólica, casou-se três vezes...E recheia as vivências que relata com as sensações e emoções que as acompanharam. É como entrarmos num filme a quatro dimensões que nos envolve enquanto o lemos.
    O conto que dá o título a esta colectânea, Manual para mulheres de limpeza, é fascinante porque dá-nos a perspetiva das mulheres de limpeza mas sem cair na dicotomia fácil de ridicularizar as patroas. Apenas descreve o dia a dia de uma mulher de limpeza que tem dificuldade em ser aceite pelas empregadas e pelas patroas porque tem "educação" e vai dando conselhos: aceitem tudo que a vossa patroa vos der e digam obrigada. (....) por regra, nunca trabalhem para amigos. (...) quanto a gatos...nunca se afeiçoem a eles....(...) Também nunca trabalhem para psiquiatras....(...) mostrem-lhes que são rigorosas. Mas ao mesmo tempo que vai entrando e saindo de casa vai falando sobre Ter e a sua morte e acaba o conto dizendo: Finalmente, choro.
    Mas o conto que mais me tocou foi o Espera um minuto, sobre a morte da irmã que ela acompanhou e que aborda noutros contos [Zango-me com todos porque estão a trabalhar, a viver. Por vezes, odeio-te por não estares a morrer. Não é horrível?
    Não, porque consegues dizer-mo. E eu consigo dizer-te que fico contente por não ser eu quem está a morrer. (Mã)].
     Este conto é escrito sete anos depois da morte da irmã, talvez por isso se perceba a mágoa, a saudade, mas não seja comovente. Não resisto a retirar um excerto:

    Quando alguém tem uma doença terminal, o ritmo tranquilizador do tempo é estilhaçado. Depressa de mais, não há tempo, adoro-te, tenho de acabar isto, diz-lhe isso. Espera um minuto! Quero explicar (...) Ou então o ritmo torna-se sadicamente lento. A morte limita-se a pairar por perto enquanto esperamos que caia a noite e, depois, esperamos que amanheça. Todos os dias nos despedimos um bocadinho.

    É impossível dar uma imagem completa destes contos. Só lendo-os. Mais que uma leitura, uma experiência a não perder.

domingo, 25 de junho de 2017

Noite da Literatura Europeia - Lisboa 2017

     
    Ontem, 24 de junho, participámos como voluntárias na Noite da Literatura Europeia 2017. Oportunidade de conhecer pessoas que gostam de livros, novos autores e espaços em regra inacessíveis a visitantes.
    Foi também a primeira vez que ouvi falar deste evento que, soube depois, nasceu em 2008 em Praga, na República Checa, com o objetivo de dar a conhecer a literatura europeia contemporânea através de curtas leituras em espaços diversificados. As leituras, com aproximadamente 15 minutos de duração, repetem-se a cada meia hora para permitir que o público possa visitar todos os onze locais e assistir ao programa completo.
    As leituras decorreram em diversos espaços entre o Carmo e a Trindade, das 18:30 às 23:30. Nesta edição, participaram 11 autores de 11 países europeus:
     
Tilman Rammstedt – Alemanha
Obra: Amanhã há mais
Leitor: Ulisses Ceia
Local: Quartel do Carmo da GNR

Kathrin Röggla – Áustria
Obra: Fake reports
Leitores: Daniela Gonçalves, Olinda Favas, Emanuel de Sousa
Local: Círculo Eça de Queiroz

Cristina Peri Rossi – Espanha
Obra: O amor é uma droga dura
Leitores: John Wolf, Lauren Mendinueta
Local: Academia de Amadores de Música

Arto Paasilinna - Finlândia
Obra: A lebre de Vatanen
Leitora: Cátia Sá
Local: Lisboa Pessoa Hotel

Olivier Bourdeaut - França
Obra: À espera de Bojangles
Leitora: Ana Sofia Paiva
Local: Museu Arqueológico do Carmo

Andreas Staikos - Grécia
Obra: As ligações culinárias
Leitor: José Ideias
Local: Claustro do Museu de S. Roque (SCML)

Simonetta Agnello Hornby - Itália
Obra: Café amargo
Leitora: Inês Lapa
Local Sala do Brasão do Museu de S. Roque (SCML)

Catarina Sobral - Portugal
Obras: Achimpa; O meu avô
Leitor: Miguel Fragata
Local: Terreiro Místico da Igreja do Santíssimo Sacramento

Alex Bellos - Reino Unido
Obras: Futebol: O Brasil em campo; Alex no país dos números
Leitor: Rogério Martins
Local: Sala de Extrações da Lotaria Nacional (SCML)

Jiří Hájíček – República Checa
Obra: Pau de chuva
Leitor: Júlio Martín
Local: Livraria Sistema Solar

Matei Vișniec - Roménia
Obra: Teatro decomposto ou O homem-lixo
Leitor: Nuno Pinheiro
Local: Teatro da Trindade

Não tive oportunidade de ver na íntegra todas as leituras, mas não posso deixar de referir a leitura do livro À espera de Bojangles. Não sei se foi do cenário, da leitura ou da música, mas foi um momento mágico. Vou de certeza lê-lo.



sábado, 13 de maio de 2017

Na pele de uma jihadista, Anna Erelle (Objetiva)

 
  Na pele de uma jihadista lê-se de um fôlego. Na Primavera de 2014, uma jornalista cria um perfil falso, o de uma jovem convertida ao Islão, para investigar a rede de recrutamento do Estado Islâmico. É surpreendente a facilidade com que é contactada,  a estratégia que é utilizada e que aparentemente funcionou com centenas de jovens que foram aliciadas e abandonaram tudo para se juntarem à jihad na Síria. 
    O perfil falso tem um nome - Mélanie Nin - e a fotografia de perfil é uma imagem da princesa Jasmine da Disney. É com esse perfil que divulga o vídeo de Abu Bilel, um jihadista francês de cerca de 35 anos, que exibe o inventário do seu 4 x 4. Nesse mesmo dia recebe várias mensagens do próprio que  começa por lhe perguntar se ela está a pensar ir para a Síria. A partir daí vive uma situação quase esquizofrénica, assumindo ao final do dia a personalidade de Mélanie e colocando o véu para falar com Abu pelo skype, atirando depois o véu para um canto quando desliga a câmara. E se no início estas mudanças eram fáceis e risíveis até, a dado passo começam a pesar muito à própria e a quem a acompanha neste processo - o fotógrafo e, ocasionalmente, o namorado.
    Surpreendente é a imagem de Abu Bilel, o cuidado com o visual e o gosto por objetos de marca, utilizando, contudo, uma retórica anticapitalista. O assédio a Mélanie aumenta progressivamente tornando-se quase opressivo e varia entre indicações sobre como ela será recebida e deverá comportar-se e perguntas de foro íntimo, quase voyeuristas. 
    Embora a intenção fosse fazer a viagem até à fronteira, onde seria tirada uma fotografia a Mélanie, de costas, com que acabaria o artigo, tal não é possível. Este facto não inviabiliza a  publicação do artigo nem, mais tarde, do livro, que levaram a que a autora fosse declarada inimiga do Islão.
   
   Anna Erelle antes tinha feito trabalhos de investigação sobre algumas destas jovens, contactando as famílias, visitando as casas onde habitavam e especialmente os quartos mantidos intactos. Surpreende muito a facilidade com que estas jovens deixam tudo para trás e escolhem ir viver num país em guerra, trocando t-shirts por burkas e kalashnikovs. Será como ela refere porque é fácil ir atrás destas miúdas que não tiveram acesso a uma educação sólida, nem a uma certa forma de cultura? Bastaria alterar estes vectores para inverter esta situação? A dado passo refere também que afinal de contas, brincar às guerras e exibir a brincadeira é muito mais interessante do que ser o líder do bairro ou ganhar num jogo de Playstation.
    

domingo, 30 de abril de 2017

A vegetariana, Han Kang (D. Quixote)

   
  A vegetariana é um livro absolutamente inquietante e arrebatador. Ao longo da sua leitura tive impressões distintas, inicialmente pensei que esta história não poderia decorrer ou ter como cenário outro país ou outra cultura, mas noutras partes pareceu-me universal nos problemas que aborda e na forma como o faz. 
  O livro tem três partes, a primeira dá o nome ao livro, A vegetariana, e é narrada na primeira pessoa pelo marido de Yeong-hye, a segunda parte tem o título Mancha mongólica e é contada pelo cunhado e a terceira parte, Árvores flamejantes, é narrada pela irmã. Todas as partes acabam de forma inquietante, como uma espécie de clímax da parte respetiva.
    
    A protagonista, Yeong-hye, é a mulher, a cunhada, a filha, a irmã, mas nunca tem voz ativa, a não ser em pequenos diálogos, quando responde ao que lhe é perguntado. O marido descreve-a como uma pessoa banal (....sempre pensei nela como alguém que não tinha rigorosamente nada de especial.) nem atraente, nem repulsiva pelo que não havia motivo para que não se casassem. Aliás, ele próprio confessa que uma mulher bonita ou inteligente ou sensual teria acabado por perturbar a sua existência.    
    Toda a sua vida  se desmorona quando a mulher tem um sonho e se torna vegetariana. Mas esta decisão, tão comum atualmente, é sustentada exclusivamente pelo sonho que teve e é acompanhada de uma recusa de comer vários alimentos além da carne  e por um conjunto de comportamentos que indiciam que por trás daquela decisão há uma perturbação maior. Neste capítulo há uma cena particularmente violenta quando a família de Yeong-hye se reúne em casa da irmã, em que para além do marido e dos pais, estão os irmãos, os cunhados e os sobrinhos. Percebemos então que o pai é uma pessoa extremamente violenta e que Yeong-hye sofreu muito durante a infância.
    O cunhado, um artista que estava inativo nos últimos anos, fica fascinado pela mancha mongólica que sabe que a cunhada tem, começa a imaginar obsessivamente o corpo dela coberto de flores e ela acede ao seu desejo de o pintar e filmar. Na terceira parte, já só a irmã a visita na instituição onde está internada e aí percebemos que o desejo dela é tornar-se vegetal. Uma árvore.
    O livro tem uma cinta que num dos lados indica que foi o romance vencedor do Man Booker International Prize e, do outro lado, tem um comentário de Ian McEwan, escritor que muito aprecio, que considera este livro um pequeno romance sobre sexualidade e loucura que merece todo o sucesso que alcançou. Eu penso que é sobretudo um romance sobre a loucura versus normalidade e como o espaço que os separa é tão estreito. Aliás, a irmã de Yeong-Hye diz-lhe já no final:
     Sabes, eu também tenho sonhos. Sonhos....e também podia deixar-me dissolver neles, deixar que eles tomassem conta de mim.... Mas tenho a certeza de que há mais coisas além dos sonhos. A certa altura, temos de acordar, não é?

terça-feira, 25 de abril de 2017

Deus não mora em Havana, Yasmina Khadra (Bizâncio)

   
    Mais um livro de Yasmina Khadra, desta feita passado em Havana, Cuba. Embora num cenário e num contexto distintos, encontro várias similitudes com o livro anterior que li deste autor: Os Anjos Morrem das Nossas Feridas. 
    Em ambos os livros, as personagens principais apesar de terem carreiras distintas dependem do público. Neste último encontramos Dom Fuego, um cantor de muito sucesso mas que, apesar do virtuosismo, nunca conseguiu interessar um letrista ou compositor a criar uma canção para ele. Naquele outro, a personagem central é Turambo, um boxeur. Também de comum nas duas histórias, uma paixão imensa por uma mulher. 
    O livro inicia-se com uma apresentação de Dom Fuego que depois de atuar mais uma vez no Buena Vista Café é informado que este foi comprado por uma gaja de Miami no âmbito de uma privatização decidida pelo Partido.
    Dom Fuego esforça-se por encontrar alternativas para atuar mas sem sucesso durante os primeiros tempos e é então que vamos conhecendo o mosaico de pessoas que o rodeiam, em particular a família e o amigo Panchito. 
(...) Sem música, não sou mais que um eco anónimo lançado ao vento. Já não tenho veias, nem, portanto, sangue; já não tenho ossos que me mantenham de pé, nem rosto para esconder.

    À noite Don Fuego passeia-se e não lhe apetece regressar a casa pois receia acordar o cunhado, Javier, que, com frequência ameaçava expulsar todos de casa pelo que opta por se estender no banco de fundo de um eléctrico abandonado. Mas um dia descobre que uma rapariga deslumbrante se encontra lá escondida porque, como ela lhe explica, não tem para onde ir. A pouco e pouco vai-se criando uma relação de confiança entre ambos, até que um dia a descobre ferida depois de ter sido atacada e provavelmente violada. Leva-a para casa da irmã que a recebe e cuida dela, mas quer ele, muitos anos mais velho, quer o seu sobrinho se apaixonam por ela
    A paixão de Don Fuego por Mayensi leva-o a deixar a casa da irmã e a arranjar uma casa onde vivem os dois, recomeçando ele a atuar, mas este período idílico dura pouco tempo.
    Se há traços comuns nos dois livros, como referi, a diferença é que neste a relação entre Don Fuego e Mayensi é redentora para ambos. Don Fuego integra um grupo musical que tem um enorme sucesso com a canção Don Fuego, cuja letra fora escrita por Mayensi e como ele não desiste de a procurar, termina por a encontrar e perceber que ela abandonou os fantasmas do passado.
    Apesar de gostar da história, há uma densidade nos outros livros que li deste autor, em particular nas personagens, que não encontro neste. Sobretudo a personagem feminina Mayensi, cuja história adivinhamos mais que sabemos mas  sentimos que muito fica por dizer.