domingo, 19 de fevereiro de 2017

Cartas de Amor de Grandes Homens, Ursula Doyle (Bertrand Editora)

     Tenho de confessar que este livro foi uma deceção. Mas o defeito foi meu: ao ler “Cartas de Amor de Grandes Homens”, assumi que estava a ler “Grandes Cartas de Amor de Grandes Homens”. A maioria das cartas não eram sequer, em meu entender, cartas de amor propriamente ditas – muitas delas eram só mesmo cartas entre apaixonados, e não particularmente boas, em meu entender.
    A breve introdução dos vários autores também é muito fraca, dando poucas informações sobe o autor e a ou as contempladas (ou contemplados, em alguns casos) com as cartas – sim, porque, por vezes, o amor era tanto que as cartas que são transcritas foram cartas enviadas para mais do que uma pessoa.
   Uma boa surpresa foi a quantidade de cartas de autores portugueses, quando as cartas foram reunidas por Ursula Doyle, inglesa.
    Ainda assim, e porque o geral foi uma desilusão, gostei muito das cartas de Diderot, de Schiller, de Pessoa, de António Nobre, de Almeida Garrett, de Shumann. Transcrevo, em seguida, algumas das passagens destas cartas:

    Adieu, meu queridíssimo amor. A minha afeição por ti é ardente e sincera. Amar-te-ia ainda mais do que amo se soubesse como.
    - Diderot, para Sophie Volland

    Quem me dera ser uma ave: arrancaria uma pena às minhas asas e, voando ao céu, embebê-la-ia na tinta da aurora, naquela tinta vermelha com que os anjos escrevem cartinhas de namoro às estrelas.
Quem me dera escrever-te com uma pena assim e com uma tinta igual: - eu seria, pela primeira vez, anjo, e tu serias o que há muito és: - estrela!
    - António Nobre, para Cândida Ramos

    Juro que já não tenho mérito em te ser fiel, em te protestar e guardar esta lealdade exclusiva que hei-de consagrar até o último instante da minha vida: não tenho mérito algum nisso. Depois de ti, toda a mulher é impossível para mim, que antes de ti não conheci nenhuma que me pudesse fixar.

- Almeida Garrett, para Rosa Montufar Infante

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

A Fotografia, Penelope Lively (Civilização Editora)

 
  Encontrei este livro à venda num centro comercial do Porto. O preço de saldo, aliado à capa, e à indicação Vencedora do Booker Prize (a autora, claro, mas não por este livro) levaram-me a folheá-lo e a interessar-me logo pela sua leitura.
    Há livros assim, muito bem escritos, que imediatamente nos arrebatam mas não convencem. A história pode ser contada em poucas linhas: um académico, viúvo, encontra numa estante um envelope onde está escrito, pela mão da mulher morta há já algum tempo, o seguinte: NÃO ABRIR - DESTRUIR.   
    Dentro do envelope está uma fotografia de um grupo de pessoas. Um homem e uma mulher estão de costas voltadas para o fotógrafo e de mãos dadas. Reconhece os dois: a mulher dele, Kath, e o cunhado, casado com Elaine, irmã dela. Esta descoberta leva-o a uma procura obsessiva do momento em que a fotografia havia sido tirada, da relação  entre os dois e ainda da eventual existência de outros homens na  vida de Kath. 
   
    A investigação termina por afetar outras pessoas envolvidas, num jogo de dominó em que o passado irrompe pelo presente e leva as pessoas a confrontarem-se com as opções feitas e as suas consequências.
     O livro, como já referi, está muito bem escrito. O jogo de presença e ausência de Kath, a maneira como conhecemos cada uma das personagens e como a procura do marido desencadeia dúvidas e interrogações em todos os outros é fascinante. Contudo, fechamos o livro sem respostas, mas também sem muitas perguntas. Muitas das dúvidas surgiriam naturalmente da morte de Kath, numa espécie de autópsia psicológica que aparentemente só a fotografia desencadeou. Confesso até que não me pareceu muito credível que alguém escrevesse num envelope aquela mensagem. Se queria destruir, destruía imediatamente ou guardava, mas nunca com aquela indicação. Nem percebo o efeito da mesma, até porque toda a ação resulta da fotografia em si mesma, pelo que bastaria o facto de ter encontrado a fotografia guardada num envelope.
     O livro passa ainda a mensagem da beleza como uma maldição ("Ela, de entre todas as pessoas", diz ele. "Uma abençoada pelos deuses, ter-se-ia pensado. Mas não era, pois não? Pelos condenados, talvez.")

sábado, 21 de janeiro de 2017

A Relíquia, Eça de Queirós (BI - Biblioteca editores Independentes)


    Contrariamente ao que disse na entrada anterior a esta, li este livro pequenino quase paralelamente ao de Maria de Belém. É o quarto livro de Eça de Queirós que leio, juntando-se aos clássicos “Os Maias” e “O Crime do Padre Amaro”, bem como a “O Mistério da Estrada de Sintra”, que escreveu juntamente com Ramalho Ortigão (todos estes livros foram lidos antes da existência deste blogue, daí que não tenha criado links para eles).

    Devo dizer que devorei os primeiros três livros. Gosto muito de Eça.
     Com “A Relíquia” foi um pouco diferente.
    Teodorico perde os pais, primeiro a mãe, no parto, e mais tarde o pai, quando ainda muito novo, sendo acolhido pela tia (a “titi”), senhora muito devota, para quem qualquer comportamento que não fosse a adoração ininterrupta do Senhor era considerado pecado. O menino cresce, então, temendo a Deus e ainda mais à titi (É necessário gostar muito da titi… É necessário dizer sempre que sim à titi!). Quando vai estudar para Coimbra, passa a gozar duma maior liberdade, desforrando-se de todos os anos de submissão mas mostrando-se cada vez mais pio na presença da tia, que nem sonha a vida de pecado que o sobrinho vive nas suas costas. Quando Teodorico descobre que a tia pretende deixar todo o seu património espalhado por gentes e instituições da Igreja, procura convencê-la que é o mais puro e mais temente a Deus que ela alguma vez encontrará, a fim de conseguir ficar com a herança. Acede, assim, a ir a Jerusalém em lugar dela, para rezar pela tia e beijar devotamente tudo em que Cristo poderia ter tocado. E, o que é mais, fica incumbido de trazer uma relíquia muito especial para a titi, algo de valor inigualável e que, de tão puro, pudesse curar todas as maleitas da senhora (que é o que Teodorico menos deseja que aconteça).

    Que lhe podia eu oferecer mais sagrado, mais enternecedor mais eficaz que um ramo da árvore de espinhos, colhido no vale do Jordão, uma clara, rosada manhã de missa?
    Mas de repente assaltou-me uma áspera inquietação… E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras daquele troco? E se a titi começasse a melhorar do fígado, a reverdecer, mal eu instalasse no seu oratório, entre lumes e flores, um desse galhos eriçados de espinhos? Ó misérrimo logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o princípio milagroso da saúde, e a tornava rija, indestrutível, ininterrável, com os contos de G. Godinho firmes na mão avara! Eu! Eu que só começaria a viver – quando ela começasse a morrer!

    A escrita é maravilhosa, claro. E tanto a primeira como a terceira partes do livro foram lidas com sofreguidão e muitas gargalhadas – por vezes à custa de sobrolhos alheios erguidos no comboio ou no metro. A segunda parte, no entanto, a viagem a Jerusalém, foi para mim um pouco entediante; creio que, parcialmente, por uma falta de conhecimentos bíblicos da minha parte, o que tornou uma série de referências absolutamente desconhecidas e me fez sentir perdida na história.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Mulheres Livres, Maria de Belém Roseira (A Esfera dos Livros)

  Decidi romper o meu hábito de ler unicamente romances e passar alguns estilos alternativos - não consigo ler esses livros com a mesma sofreguidão mas por vezes até são bem-vindos , particularmente quando o romance que estou a ler simultaneamente é demasiado grande para andar a passear comigo todos os dias.
    Foi assim que comecei a ler este livro em particular, já há uns bons anos a reclamar a minha atenção na estante. E foi uma boa surpresa. Gostei muito de conhecer melhor as histórias destas mulheres, escolhidas pela Maria de Belém. São elas: Marie Curie, Isadora Duncan, Carolina Beatriz Ângelo (a minha nova heroína), Virgina Woolf, Anna Eleanor Roosevelt, Dolores Ibárruri Gómez, Hannah Arendt, Frida Kahlo, Simone de Beauvoir, Simone Veil, Maria de Lurdes Pintassilgo e Benazir Bhutto.
    Confesso que fiquei um pouco desapontada com alguns aspetos da escrita da autora, mas no global foi uma boa viagem ou, melhor dizendo, viagens.
    Deixo, em seguida, o parágrafo inicial do livro, que não poderia ser mais apropriado para refletir o que se encontra nas suas páginas:

    São todas mulheres, as personagens que percorrem as páginas deste livro. Mulheres excecionais que, nas mais diferentes áreas, da ciência, à literatura, da política à filosofia, nunca deixaram de lutar pelos seus ideais, de defender as suas ideias, ultrapassado com perseverança os mais variados obstáculos, rompendo com o conceito de normalidade, desprendendo-se das amarras que tentavam silenciar a sua voz e calar a sua liberdade, não se deixando influenciar pela crítica ou pelo preconceito das suas épocas. Mais, nunca esquecendo, muito pelo contrário, orgulhando-se  da sua condição de mulheres e preocupando-se com a situação das outras mulheres. Todas com uma coragem e determinação que fazem delas, na minha opinião, mulheres livres.

A história da 1002ª noite, Joseph Roth (E-Primatur / Letras Errantes)

    
 
    Com frequência o Diogo surpreende-me com livros de autores que nunca li nem ouvi falar. Desta vez foi com o livro A história da 1002ª noite de Joseph Roth. Mas antes de falar sobre o livro, não posso deixar de referir a editora, E-Primatur, de  nunca tinha ouvido falar, mas que me surpreendeu pela qualidade da edição. Descobri então que se trata de um projeto absolutamente inovador que vale a pena visitar:
(...) os livros que serão editados pela E-primatur visam preencher lacunas graves no panorama cultural/editorial português. Essas edições serão divulgadas a partir do sítio do Projecto E-Primatur, nas redes sociais e a partir de páginas de sítios parceiros. 
Parte do Projecto contempla a figura do crowdpublishing, a vertente para edição de livros do crowdfunding, ou financiamento colectivo, como apoio à publicação, mas sobretudo como mecanismo de promoção, divulgação e financiamento.
No sítio da Editora será também possível o leitor indicar que livros gostaria de ver publicados no mercado português ou reeditados depois de longos períodos de ausência dos escaparates.

     A história do livro, inicialmente um conto das mil e uma noites, arrebata-nos, mas o que tomamos como um conto ficcional, rapidamente se torna uma crítica social, um livro de costumes da época. Como se se tratasse de dois livros ou de duas histórias que se cruzam: de um lado o Xá da Pérsia que viaja até Viena e se deslumbra num baile organizado para o receber com uma mulher com quem quer passar a noite. Do outro lado, a Viena com as suas convenções e preconceitos sociais.
   Como a mulher desejada pelo Xá era casada e nunca acederia a passar uma noite com ele, decidem substitui-la por outra. A partir dessa noite, tudo muda para essa mulher e para todos os demais envolvidos.  E aí passamos do sonho para a realidade de uma sociedade socialmente estratificada, onde os filhos ilegítimos não têm direitos e as mulheres são profundamente discriminadas. Uma sociedade, porventura não muito distinta  da dos restantes países europeus nas primeiras décadas do século XX mas quase inconcebível para o leitor de hoje.

    Se esta história fosse contada por Xerazade, presumo que o rei também adiaria a sua morte, dia após dia, para poder continuar a saber o que iria acontecer a Mizzi e a Taittinger.

domingo, 8 de janeiro de 2017

O romancista ingénuo e o sentimental, Orhan Pamuk (Editorial Presença)

  
    Uma das minhas prendas de Natal, oferecida pelos meus filhos que sabem o quanto aprecio este autor. Uma primeira palavra para esta edição que, embora de 2012, tem uma sobre capa que oculta a capa original. Segundo a ficha técnica, a ilustração da capa original é de um quadro After the ball (óleo sobre tela), por Casas i Carbo, Ramon (1866-1932). O que terá levado a editora a cobrir esta capa com uma sobre capa, sem qualquer imagem, apenas com o título e o nome do autor em caracteres brancos significativamente maiores, escapa-me completamente. A original atrair-me-ia muito mais que esta sobre capa...Por isso mesmo optei por colocar aqui a capa original.
    O livro condensa um conjunto de conferências que o autor deu na Universidade de Harvard, cujo título é baseado no ensaio de Schiller, a Poesia Ingénua e Sentimental. De acordo com o autor,  na esteira de Schiller, os poetas - escritores - ingénuos escrevem de forma espontânea, não se preocupando com as consequências das suas palavras, nem prestando atenção àquilo que os outros possam dizer, ao contrário dos sentimentais, que não têm a certeza que as suas palavras abranjam toda a realidade e preocupam-se com os princípios pedagógicos, éticos e intelectuais. 
   O objetivo do autor é encontrar o equilíbrio entre o romancista ingénuo e o sentimental que, considera, existem dentro dele.
    Confesso que o que gostei mais de ler foram as reflexões que faz sobre diversos livros enquanto leitor. Aliás, sendo uma obra sobre o autor, o romancista, este livro tem sempre presente o leitor: o autor enquanto leitor e os leitores do livro dele. O primeiro capítulo analisa O que se passa na nossa cabeça quando lemos romances:
    Tirar partido da leitura de um romance, sentindo prazer, é deliciarmo-nos com o ato de partir das palavras para transformarmos todas essas coisas em imagens na nossa cabeça, Ao retratarmos na nossa imaginação aquilo que as palavras nos querem dizer, nós leitores, completamos a história.
(...) 
    Mas mesmo nos outros capítulos analisa esta questão:
Ler um romance é executar o mesmo gesto ao contrário. A única coisa que está entre o escritor e o leitor é o texto do romance, como se este fosse uma espécie de tabuleiro de xadrez, diverrindo-se ambos a jogar. Cada leitor vê o texto à sua maneira e procura o centro onde lhe apetecer
    O autor aborda também a confusão que o leitor, mesmo o mais avisado, faz entre o autor e o protagonista e na dúvida que com frequência os próprios autores criam. Utiliza muitos romances para ilustrar o que vai escrevendo, mas volta obsessivamente a Ana Karenina, o que me deu uma imensa vontade de o reler.
    

sábado, 31 de dezembro de 2016

Livros para 2017

    Juntei todas as festas do ano numa semana, Natal, aniversário e passagem do ano. Numa semana despacho tudo. Durante a minha infância e juventude senti-me imensamente injustiçada. Poucos amigos estavam por cá e, muitas vezes, as prendas eram dadas em conjunto, ou pelo menos apresentadas como tal. Para piorar as coisas, a minha avó paterna, já então acamada há vários anos, veio a falecer no meu dia de anos. Justamente quando dei a maior festa que me recordo. Seguiram-se muitos anos de comemorações discretas, com a família próxima apenas.
    É quase ousado dar um festa entre o Natal e a passagem do ano, ainda estamos a recuperar da primeira e já nos estamos a preparar para a segunda. Não nos apetecem doces, nem festas. 
    Com o passar do tempo fui-me habituando a esta comemoração tranquila, entalada entre duas festas. A idade traz destas coisas. A vantagem do aniversário entre estas datas é que numa semana reencontro e falo com família e amigos e junto muitas prendas. Livros sobretudo, o que adoro. Aqui ficam os meus livros para iniciar 2017