LEIO LOGO...

.
.
.
LEIO, LOGO...


A nova rubrica quinzenal da nossa página afiliada, Ponto&Vírgula, começa com o testemunho na nossa co-autora Ana Vargas.

Leia AQUI o texto de dia 24 de abril: #1 Leio, logo... crio laços.

***

Queremos que participe nesta rubrica! O que é, para si, ler? Qual é a sua visão do mundo literário, do lado do leitor? Entre em contacto connosco, por mensagem privada na página Ponto&Vírgula e partilhe a sua opinião.


terça-feira, 3 de abril de 2018

Desafio 100 livros BBC

    De acordo com a BBC, da lista de 100 livros abaixo, cada pessoa terá lido apenas 6. Aqui no Clube de Leituras, orgulhamo-nos de dizer que cada uma de nós leu 26! E aceitamos o desafio de ler os restantes 74. E por aí? Quantos livros já leram da lista?

1. Orgulho e Preconceito, Jane Austen
2. O Senhor dos Anéis. J.R.R. Tolkien
3. Jane Eyre, Charlotte Brontë
4. Harry Potter e a Pedra Filosofal, J.K. Rowling
5. Mataram a Cotovia, Harper Lee
6. Bíblia Sagrada
7. O Monte dos Vendavais, Emily Brontë
8. 1984, George Orwell
9. Saga Mundos Paralelos, Philip Pullman
10. Grandes Esperanças, Charles Dickens
11. Mulherzinhas, Louise May Alcott
12. Tess dos D'Ubervilles, Thomas Hardy
13. Catch-22 (Artigo 22), Joseph Heller
14. A Peste, Albert Camus
15. Rebecca, Daphne du Maurier
16. O HobbitJ.R.R. Tolkien
17. O Canto dos Pássaros, Sebastian Faulks
18. À Espera no Centeio, J.D. Salinger
19. A Mulher do Viajante no Tempo, Audrey Niffenegger
20. Middlemarch, George Eliot
21. E Tudo o Vento Levou, Margaret Mitchell
22. O Grande Gatsby, F. Scott Fitzgerald
23. Bleak House (Casa Sombria), Charles Dickens
24. Guerra e Paz, Lev Tolstoi
25. À Boleia pela Galáxia, Douglas Adams
26. Reviver o Passado em Brideshead, Evelyn Waugh
27. Crime e Castigo, Fiódor Dostoiévski
28. As Vinhas da Ira, John Steinbeck
29. Alice no País das Maravilhas, Lewis Carroll
30. O Vento nos Salgueiros, Kenneth Grahame
31. Anna KaréninaLev Tolstoi
32. David Copperfield, Charles Dickens
33. A Oeste Nada de Novo, Erich Maria Remarque
34. Emma, Jane Austen
35. Persuasão, Jane Austen
36. O Leão, a Feiticeira e o Guarda-roupa, C.S. Lewis
37. O Menino de Cabul, Khaled Hosseini
38. O Bandolim do Capitão Corelli, Louis de Bernières
39. Memórias de uma Gueixa, Arthur Golden
41. A Quinta dos Animais, George Orwell
42. O Código Da Vinci, Dan Brown
43. Cem Anos de Solidão, Gabriel García Márquez
44. Folhas de Erva, Walt Whitman
52. Duna, Frank Herbert
53. Cold Confort Farm, Stella Gibbons
54. Sensibilidade e Bom Senso, Jane Austen
55. Um Bom Partido, Vikram Seth
56. A Sombra do Vento, Carlos Ruiz Záfon
57. História de Duas Cidades, Charles Dickens
58. Admirável Mundo Novo, Aldous Huxley
59. O Estranho Caso do Cão Morto, Mark Haddon
60. O Amor nos Tempos de CóleraGabriel García Márquez
61. Ratos e Homens, John Steinbeck
62. Lolita, Vladimir Nabokov
63. A História Secreta, Donna Tart
64. Rumo ao Farol, Virgina Woolf
65. O Conde de Monte Cristo, Alexandre Dumas
66. Pela Estrada Fora, Jack Kerouac
67. Judas, o Obscuro, Thomas Hardy
68. O Diário de Bridget Jones, Helen Fielding
69. Os Filhos da Meia-Noite, Salman Rushdie
70. Moby Dick, Herman Melville
71. Oliver Twist, Charles Dickens
72. Drácula, Bram Stoker
73. O Jardim Secreto, Frances Hodgson Burnett
74. Crónicas de uma Pequena Ilha, Bill Bryson
75. Ulisses, James Joyce
76. A Campânula de Vidro, Sylvia Plath
77. Pergunta ao Pó, John Fante
78. Germinal, Émile Zola
79. A Feira das Vaidades, William Makepeace Thackeray
80. Possessão, Antonia Susan Byatt
81. Um Conto de Natal, Charles Dickens
82. Atlas das Nuvens, David Mitchell
83. A Cor Púrpura, Alice Walker
84. Os Despojos do Dia, Kazuo Ishiguro
85. Madame Bovary, Gustave Flaubert
86. Memórias de Adriano, Marguerite Yourcenar
87. A Teia de Carlota, Elwyn Brooks White
88. As Cinco Pessoas que Encontramos no Céu, Mitch Albom
89. As Aventuras de Sherlock Holmes, Arthur Conan Doyle
90. A Casa na Árvore, Enid Blyton
91. Coração das Trevas, Joseph Conrad

domingo, 25 de março de 2018

A Cozinha Açafrão, Yasmin Crowther (Dom Quixote)

    Existe sempre um certo receio em começar um novo livro: vamos gostar?; vai prender-nos?; vamos passear com ele indefinidamente, inventando sempre uma nova desculpa para não lhe pegarmos? E se este novo livro vem na sequência de um outro que não nos despertou interesse, o receio é ainda maior. Afinal, com tanta coisa para ler, o que menos nos apetece é perder tempo com livros que não nos tocam.
    Por esse motivo, quando peguei em A Cozinha Açafrão, depois de ter desistido da leitura de Era Tudo tão Bom, queria mesmo que fosse um livro que me envolvesse. Apesar de tudo, já estava na minha estante há algum tempo, porque foi uma compra impulsiva à conta da promoção em que se encontrava; ainda assim, uma amiga muito querida já me tinha dito que tinha gostado, descrevendo-o como "muito forte". E é. Subscrevo a opinião.

    Gosto de livros sobre outras culturas; é a minha forma de viajar e conhecer o mundo sem ter de sair de casa nem pagar uma fortuna. Neste em particular, o choque entre realidades fica bem patente porque é parte do tema dele. 
    Maryam Mazar é filha de um influente homem do Irão. Com dezasseis anos, luta contra as amarras da tradição que lhe exigem o casamento com alguém da sua classe, quando o que mais quer é estudar e tornar-se independente por meios próprios. Numa noite de conflitos cerrados na região, é resgatada pelo ajudante do pai, Ali, por quem nutre talvez uma paixão de adolescente. Depois dessa noite, a vida de Maryam sofre uma reviravolta irreversível, que a marca para sempre e a leva ao exílio, por parte do pai, primeiro para Teerão e depois para Londres.
   É em Londres que refaz a vida, casa com Edward e juntos têm uma filha, Sara. Mas a vida passada de Maryam persegue-a e não a deixa estar plenamente viva em Londres. A chegada do sobrinho vem reabrir a porta atrás da qual Maryam tanto se esforçara por manter trancados os fantasmas da sua adolescência, e ela vê-se forçada a abandonar a família para se reconciliar com o passado. 

   É uma história cruel, que nos mostra como as feridas que nos marcam nos perseguem por toda a vida e, mais tarde ou mais cedo, se reabrem e acabam por se repercutir também naqueles que nos rodeiam (...não é só a vida dela (...). É também a vida da família dela aqui, e agora, a família em Inglaterra. A história é que ela partiu o coração ao pai, e agora também te magoa a ti, não é, com esta vida dela?). É a história de uma mãe perseguida por um trauma que se esforça por esconder, e de uma filha que se se sente traída por esse passado que não lhe pertence mas que a acompanha sempre  E é uma história de reencontros, de reconciliações, de como precisamos realmente de entrar na pele do outro para podermos perceber que a vida e as decisões tomadas não se pintam apenas de preto ou branco.

    Depois de ele ter saído, Maryam apanhou o cabelo. Procurou na mala o chador cor-de-rosa que comprara com Mairy no bazar há anos atrás, sacudiu-o para o abrir, e segurou-o em frente à cara; um cheiro a lavanda inglesa nas dobras. Colocou-o à volta da cabeça e dos ombros e ajoelhou-se para se ver no fragmento de espelho que Noruz apoiara no parapeito da janela. Estava com um ar cansado, ela sabia-o, e pôs creme na cara, a fragrância recordando-lhe a sua casa de banho de mármore de Londres. Respirou fundo, tentando manter unidas as fronteiras rasgadas do seu mundo, passando cautelosamente de um lugar para outro.

    Um crítica? Como já vem sendo hábito - infelizmente - a tradução. Alguns pontos não consegui perceber se eram de facto pequenas falhas linguísticas ou tentativas de manter essas falhas que teriam sido dadas no original. Mas não eram todos.

***

quarta-feira, 21 de março de 2018

As lamas do Mississipi, Hillary Jordan (Saída de Emergência)

  
    Acabei ontem de ler este livro que foi uma excelente descoberta. A história decorre no Mississipi, no final da segunda guerra mundial, e é narrada, à vez, pelas diferentes personagens.
    Percebemos desde o início que uma catástrofe, um drama, se irá abater sobre todos eles, mas só conhecemos os seus contornos exatos no final do livro.
    Henry, a mulher, Laura, e as duas filhas vão viver para uma quinta no Mississipi, cumprindo o sonho dele. Com eles, vai também o pai de Henry, um velho belicoso, racista e mesquinho e, pouco tempo depois, junta-se-lhes Jamie, o irmão mais novo de Henry.
   Jamie foi aviador na segunda guerra mundial, e é um sedutor, em tudo diferente do irmão e do pai. Laura descreve-o dizendo que ele gostava de ter as pessoas do seu lado.
    Laura tem grande dificuldade em se adaptar à vida na quinta e, sobretudo, à casa em que ficam instalados que nem sequer tem uma casa de banho. 
    E é nesta quinta cheia de lama, isolada, que conhece Florence, uma negra, cujo marido é rendeiro deles, que é parteira, mas que aceita trabalhar para eles, assegurando a limpeza da casa. Florence é uma mulher religiosa, supersticiosa e profundamente intuitiva. Para além dos filhos mais novos que vivem com eles, tem um filho, Ronsel, que esteve também na segunda guerra mundial e que regressou algum tempo depois da guerra acabar,  para ver que afinal nada mudou no seu país. 
    Jamie e Ronsel têm em comum a guerra, a idade e a dificuldade de se adaptarem às regras que regem a vida daquela comunidade. 
    Sentimos no princípio do livro que iremos testemunhar uma tragédia, um drama que envolverá aquelas pessoas mas cujo início ou causa é difícil de identificar. Como nos diz Laura, praticamente no início do livro: o meu sogro foi assassinado por eu ter nascido uma rapariga comum em vez de bonita. E é um começo possível.
    Talvez seja esta a parte mais frágil do livro, a expetativa que acompanha a leitura de que alguma coisa irá acontecer impedindo-nos de apreciar plenamente a história (e a escrita).

     Depois de o ler, descobri que foi adaptado recentemente ao cinema, com o título: Mudbound - As lamas do Mississipi.
     Vi entretanto o filme e, apesar de ser uma adaptação fiel ao livro, é um desastre, presumo que quase imperceptível para quem não leu o livro. Por outro lado, a história que também na versão escrita é óbvia, no filme funciona como um lugar comum. Se o livro me levou a procurar o filme, o contrário nunca aconteceria.

***

domingo, 11 de março de 2018

L'ordre du jour, Éric Vuillard (Actes Sud)

   
    Debaixo do título, L'ordre du jour, aparece a indicação Récit e de facto não se trata de um romance. Uma amiga minha, residente na Bélgica, trouxe-mo e falou muito nele e num outro, que espero ler em breve, Les amnésiques
    Este livro, pequeno em termos de dimensão, é  imenso, pelo tema que trata, pela forma como o aborda, pelas denúncias que faz, pelas personagens de que fala. Demorei muito tempo a lê-lo porque, com frequência, ia pesquisar  pessoas de que falava e os factos que relatava.
    Em linhas gerais, o livro fala da anexação da Áustria por parte da Alemanha, da Anschluss, ou, mais concretamente do encontro entre Kurt von Schuschnigg, chanceler da Áustria, e Hitler, em que é imposto ao primeiro um acordo que amnistia os crimes perpetrados por nazis e designa para o governo um ministro também ele nazi. A conversa entre eles (imaginada? real?) é quase surrealista.
  Schuschnigg tenta provar tudo o que os austríacos fizeram pela Alemanha e em desespero cita Beethoven, e Hitler responde-lhe que o músico não é austríaco, mas alemão. E se esta conversa pode ter sido imaginada, outras há que são reais e que o autor, depois de as mencionar no contexto em que foram inicialmente proferidas, as relata tal como foram lidas no julgamento de Nuremberga. Após a assinatura do acordo e de cumpridas todas as exigências nele feitas, os alemães entram tranquilamente na Áustria. Em março desse ano é anunciada a anexação que é depois referendada em abril, votado favoravelmente por 99,75% dos austríacos. Mas o livro fala também do número crescente de suicídios entre austríacos por esses dias.
   O autor faz-nos circular entre o carro em que seguia Hitler na data da anexação da Áustria, o jantar oferecido por Chamberlain para despedida de Ribbentrop, a participação de Daladier, Chamberlain, Mussolini e Hitler na conferência de Munique, seis meses mais tarde, eventos muito pouco falados na atualidade, quando se fala da segunda guerra mundial.
   E nesta abordagem pouco comum, o livro inicia-se e acaba com a reunião dos 24 industriais que financiam a campanha de Hitler, sendo que alguns, durante a guerra, utilizaram o trabalho dos presos nos campos de concentração. E como recordatória, aqui ficam os nomes mencionados: Gustave Krupp (cuja fotografia aparece na capa); Bayer; BMW; Daimler; IG Farben; Agfa; Shell; Schneider; Telefunken e Siemens.
    Um livro a não perder e que espero que seja traduzido para português.

***

Quero ler este livro! [FR] [PT] 

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Era tudo tão bom, Linda Grant (Civilização Editora)


    Não gosto de escrever críticas de livros que não terminei, porque nunca se sabe quando há uma qualquer reviravolta na história que nos surpreende ou agarra. Mas já ia a meio deste livro e... não estava a funcionar entre nós. Foi um relacionamento a que tive pôr fim.
    Se tardei a desistir (quase dois meses, o que, já de si, é demasiado tempo para um livro tão pequeno), foi porque a história de fundo parecia muito interessante  e eu queria desvendá-la. Só que já vou sabendo identificar os estilos que gosto e, muito para lá da história, aprecio um livro bem escrito, bem construído e cuja escrita seja bonita - mesmo quando sobre temas feios. Não encontrei isso aqui.
    Já tinha lido um livro da Linda Grant, Vidas Entrelaçadas, e lembro-me que gostei bastante. Esse foi outro motivo para tentar manter a chama da leitura. Mas, de facto, a forma como este romance está escrito não me cativou. Não vi passagens bonitas, achei o enredo confuso e, acima de tudo, desorganizado. Parecia que, de vez em quando, a autora se lembrava de uma passagem que queria incluir e incluía-a, mesmo que não houvesse fio condutor estre o parágrafo anterior e o novo.
    Por fim, também me deu ideia que a tradução não era das melhores - outra coisa com que, sim, eu costumo implicar.
    Por isso, desisti. E, contra o que é habitual, decidi, ainda assim, fazer a crítica do que li. A verdade é que "...Pus-me a contar os livros que há para ler e os anos que terei de vida. Não chegam, não duro nem para metade da livraria". E a vida passa demasiado rápido para se perder tempo com livros que não nos cativam.
    Venha o próximo.

***

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Cuidar dos vivos, Maylis de Kerangel (Teodolito)


  Este livro foi-me emprestado por um amigo, que o recomendou vivamente, e a leitura, desde que comecei a lê-lo, foi quase obsessiva. Qualquer minuto que dispunha, pegava nele para voltar a embrenhar-me na história. A última página sempre marcada. Um livro que nos abala e faz sofrer enormemente e por isso surpreende como não conseguimos parar de o ler. Abandonar a leitura. Interromper quando custa tanto ler:
 (...) bruscamente vê passando diante de si, o pai e a mãe, os pais do paciente do quarto sete, esse jovem ao qual colocou uma sonda esta tarde, aquele que está morto e que terá os órgãos retirados esta noite, são eles; segue com o olhar a sua marcha lenta até às altas portas de vidro, encosta-se a um pilar para os ver melhor: a esta hora as vidraças transformaram-se em espelho, eles refletem-se nelas como os fantasmas se refletem na superfície dos lagos nas noites de Inverno; são a sombra de si mesmos, dir-se-ia para os descrever, revelando a banalidade da expressão menos a desagregação interior desse casal do que sublinhando o que eram ainda esta manhã, um homem e uma mulher de pé diante do mundo, e, ao vê-los caminhar no soalho lacado de uma luz fria, qualquer um poderia entender que doravante aqueles dois prosseguiam a trajetória iniciada algumas horas antes, já não viviam exatamente no mundo de Cordélia e dos outros habitantes da Terra, antes se afastavam efetivamente dele, ausentavam-se, e deslocavam-se para um outro domínio, que era talvez aquele onde sobreviviam durante algum tempo, juntos e inconsoláveis, aqueles que tinham perdido um filho. (...)
    O livro é de um sofrimento atroz, sem atenuantes, na primeira parte. A notícia da morte do filho, a incompreensão da morte quando o coração ainda bate e o peito  se eleva com o ar que nele penetra. A autorização do transplante do coração, dos pulmões, do fígado e dos rins, e a recusa do transplante dos olhos. O pedido para sussurrar-lhe ao ouvido, antes de desligarem as máquinas, os seus nomes, bem como o da irmã e da namorada. O sofrimento que é também partilhado pelos médicos e enfermeiros. E por quem o lê e se imagina a passar por aquilo. O que faria, o que diria.
    Retirados os órgãos, fugiam para outros corpos. Acompanhamos o coração. E a segunda parte, que se lê muito bem, não tem a densidade da primeira, talvez porque esperássemos uma qualquer justificação para aquela morte inicial, para o sofrimento causado. Ou até um sinal que algo permanecia para além daquele emaranhado de veias, artérias e sangue. E parece pouco, que soubéssemos apenas do coração e já não dos restantes órgãos. E não soubéssemos sequer como irá acordar  Claire, a recetora do coração. O livro acaba cedo de mais, pareceu-me.
    Do princípio ao fim, o livro está muito bem escrito, parece que as frases se encadeiam e articulam de forma a dar-nos as personagens, os seus sentimentos, os lugares por onde passam, do que se lembram, o que foram e o que são.

    Após a leitura, descobri que foi adaptado ao cinema, com o mesmo título em português, Cuidar dos vivos. Realizado Katell Quillévéré, foi exibido em festivais e recebeu vários prémios (César Awards, France 2017 – Nomeação Best Adapted Screenplay, Toronto International Film Festival 2016 – Nomeação Platform Prize, Valladolid International Film Festival 2016 – Nomeação Golden Spike, Best FilmVenice Film Festival 2016 – Nomeação Venice Horizons Award Best Film).

domingo, 18 de fevereiro de 2018

O último dia dum condenado, Victor Hugo (Portugália Editora)

   Tive oportunidade de ver recentemente a adaptação ao teatro de "O último dia de um condenado", de Victor Hugo, encenado por Paulo Sousa Costa e interpretado por Virgílio Castelo.

     Já tinha lido este livro há muitos anos, quando estudava, e decidi relê-lo, sobretudo porque a peça não suscitou em mim a emoção, a intranquilidade que recordava ter sentido aquando da leitura da obra. Confesso que não gostei de algumas opções da encenação /interpretação, sobretudo do facto de o ator - embora muito pontualmente - assumir também o papel do interlocutor, inclusive o da  filha pequena que o visita. Penso que é uma opção que não resulta, estragando a intensidade do drama que a personagem vive, especialmente naquele momento.

    O livro é um libelo contra a pena de morte. Victor Hugo era opositor à aplicação desta pena e este livro, publicado em 1829, destinava-se justamente a questionar a sua aplicação. O livro escrito na primeira pessoa, por um condenado à morte, assume claramente este objetivo:
    "Será que a leitura deste meu texto lhes poderá tornar a mão menos rápida quando algum dia estiver em jogo, naquilo a que eles chamam balança da justiça, uma cabeça que pensa, uma cabeça humana? Será que eles nunca terão refletido, os infelizes, na lenta sucessão de torturas que uma sentença de morte contém? Será que alguma vez se detiveram pensando na dolorosa ideia de que no homem que condenam existe uma inteligência, uma inteligência que contava viver, uma alma que não estava preparada para a morte?
(...)
    Estas folhas desenganá-los-ão. Talvez que um dia, publicadas, façam deter o seu espírito sobre os sofrimentos que eles não imaginam, os sofrimentos do espírito."

    Gostei de reler o livro, mas é um livro muito datado e que se encontra de forma evidente subordinado ao desígnio do autor, pelo que é totalmente centrado na angústia da antecipação da morte, ignorando a questão, que me parece inevitável que também fosse aflorada, do que vem a seguir à morte. Há apenas o receio físico da morte. A omissão do crime praticado é, suponho, intencional, para evitar que em função disso, tivéssemos simpatia ou não pelo condenado, contudo, a inexistência de qualquer reflexão sobre o crime, sobre a culpa e sobre a justiça da pena também nos distanciam da obra.
    Lugar central na história é ocupado pelo povo que anseia e assiste à aplicação da pena de morte, como de resto, antes, o condenado assistiu à partida para o degredo de outros condenados.
   
    Sabendo que Portugal foi o primeiro país europeu a abolir a pena de morte - comemora-se este ano 150 anos - fiquei absolutamente surpreendida ao descobrir que a pena de morte foi abolida em França apenas em 1981. Até esse ano ainda era aplicada a pena de morte e o método permanecia a decapitação com a guilhotina que foi usada pela última vez em 1977. E ainda no século XX, até 1939, a execução com guilhotina  era pública, passando nessa data a ser executada no interior dos estabelecimentos prisionais.