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A nova rubrica quinzenal da nossa página afiliada, Ponto&Vírgula, começou com o testemunho na nossa co-autora Ana Vargas.

Acompanhe a partir daqui os textos publicados:

#1 Leio, logo... crio laços, por Ana Vargas (24/04/2018)
#2 Leio, logo... empilho, por Sofia Guedes Vaz (08/05/2018)
#3 Leio, logo… sonho, por Alexandre Gusmão (22/05/2018)
#4 Leio, logo… exploro, por Lucinda Afreixo (05/06/2018)
#5 Leio, logo... preservo, por Manuela Pires (19/06/2018)
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Queremos que participe nesta rubrica! O que é, para si, ler? Qual é a sua visão do mundo literário, do lado do leitor? Entre em contacto connosco, por mensagem privada na página Ponto&Vírgula e partilhe a sua opinião.





sábado, 16 de junho de 2018

Uma noite em Lisboa, Erich Maria Remarque (Edições Saída de Emergência)

  
  Confesso que para além do autor, foi o título da obra, a menção a Lisboa,  que me atraiu e suscitou curiosidade.
    Lisboa, que serve de cenário a esta história, é sobretudo vista como um lugar de passagem, mas, em plena segunda guerra mundial, pelo contraste que oferece relativamente aos restantes países europeus, tem um toque encantatório:
   Embora estivesse em Lisboa há já uma semana, ainda não me habituara à sua iluminação exuberante. (...) Contornámos a Praça do Comércio com o seu aspeto teatral e, passado algum tempo, chegámos a um labirinto de vielas e escadarias inclinadas (...) Cheirava a peixe, alho, flores, sol morto e sono. De um lado, sob a Lua nascente, o Castelo de São Jorge sobressaía na noite, e o luar descia em cascata pelos degraus. Voltei-me e olhei para o porto lá em baixo. Ali estendia-se o rio, e o rio era sinónimo de liberdade e vida; corria para o oceano, e o oceano queria dizer América (...)  De dia Lisboa tem uma qualidade ingénua e teatral que encanta e cativa, mas à noite é uma cidade de conto de fadas, descendo em terraços iluminados até ao mar, como uma senhora de vestes festivas a ir ao encontro do seu misterioso amante. (...)
    E é justamente no cais, junto de um navio que ia partir para a América, que dois homens, refugiados, se encontram. Um dos homens aborda o outro e diz-lhe que tem dois bilhetes para aquele navio e que lhos oferece. Apenas lhe impõe uma condição: não quer passar a noite sozinho. Em troca dos bilhetes terá de lhe fazer companhia até ao amanhecer. O outro aceita e primeiro vão para o terraço de um restaurante e depois circulam por diversos espaços noturnos, enquanto o primeiro, Schwarz, que usava o nome que constava do passaporte que também lhe tinha sido oferecido por outro refugiado, lhe conta a sua história de amor. E é uma belíssima história de amor, sem cedências a lugares comuns.
    Mas o que mais ressalta na história que é contada é a extraordinária capacidade de resistência e solidariedade humana, materializada na repetida oferta do passaporte que, sendo um ato de generosidade, mantém, de alguma forma, vivas as pessoas que o utilizaram anteriormente: 
    (...) Por estranho que possa parecer, comecei a interessar-me por pintura, arte que até então nunca tivera significado para mim - pareceu-me que foi algo que herdei do há muito falecido Schwarz original. Lembrava-me muitas vezes do outro Schwarz, que talvez ainda estivesse vivo, e os dois fundiram-se no meu espírito, transformados num fantasma indistinto, cuja presença eu por vezes pressentia. (...)
    E a questão da memória e da permanência terminam por ser centrais nesta história: 
    (...) Entre um homem e a imagem que  o espelho lhe reflete, qual dos dois será real? O ser humano ainda vivo, ou a memória que dele fica, a imagem que o luto lhe confere? (...) Será possível que ela (a mulher) nunca antes tenha sido absolutamente minha e que apenas pela alquimia sinistra da morte tenha passado a pertencer-me? (...)
    Um livro extraordinário.

domingo, 10 de junho de 2018

A Sociedade Literária da Tarte da Casca de Batata. Mary Ann Shaffer e Annie Barrows (SUMA)

   Este livro é uma delícia. Não encontro melhor adjetivo para ele. E nada tem que ver com a Tarte da Casca da Batata - esse é apenas um detalhe curioso para um nome ainda mais curioso de uma Sociedade Literária formada durante a ocupação alemã em Guernsey.
    Há muitos anos que andava de olho neste livro, desde que, um dia, em busca de sugestões no Goodreads, ele me apareceu como livro recomendado com base nas minhas leituras. Fiquei curiosa com o resumo desde então, e tinha-o marcado como "A Ler". Mas não sabia o título em português e, ainda que tendo pensado em comprá-lo em inglês, acabei sempre por não o fazer. 
    Pois bem, agora foi adaptado ao cinema e entretanto começou a feira do livro. Estava combinado com a família que veríamos o filme este fim de semana e o livro apareceu-me à frente numa das bancas. Foi demasiado tentador para resistir. E demasiado apelativo para controlar a leitura: interrompi o livro que estava a ler para tentar ler este romance ainda antes de o ir ver no grande ecrã - e ainda bem que o fiz. O filme tem a sua piada (mesmo com as diferenças de enredo), mas não chega aos calcanhares do livro. Por isso, se viram e até gostaram, por favor, leiam. Vale muito a pena.

   Juliet Ashton é uma escritora inglesa, impetuosa e obstinada. Durante a Guerra, escreveu uma crónica semi-cómica, sob o pseudónimo Izzy Bickerstaff, entretanto compiladas para livro. No início do enredo, encontra-se em viagem para o apresentar. Sucedem então três coisas: é convidada pelo Jornal London Times para escrever um artigo sobre a leitura; começa a ser cortejada por um famoso e rico editor; e recebe uma carta de um desconhecido, Dawsey Adams, um homem da ilha de Guernsey, que a informa que tem em sua posse um livro que outrora lhe pertencera e sobre cujo autor gostaria de saber mais, pedindo-lhe para lhe indicar a morada de uma livraria em Londres. É Adams quem lhe fala pela primeira vez sobre a Sociedade Literária da Casca de Batata - e lhe desperta a curiosidade sobre a ocupação alemã na ilha.
    Juliet e Dawsey começam a corresponder-se (aliás, todo o livro é sob a forma de correspondência, entre vários personagens) e, mais tarde, vários habitantes da ilha - e membros da Sociedade - começam a partilhar as suas histórias com Juliet. É aqui que a escritora encontra uma possível fonte para o artigo do London Post e, curiosa com as pessoas que lhe escrevem, de quem logo se sente amiga, Juliet parte para Guernsey. 
   As histórias são apaixonantes, envolventes, algumas duras, porque mostram a crueza da ocupação. Mas todo o livro é como que uma ode à humanidade, às pessoas boas que aparecem nas nossas vidas. E como os livros podem ser uma boia de salvação em tempos difíceis.

    Transcrevo (e subscrevo) o epílogo, escrito pela Annie Barrows, a sobrinha de Mary Ann Shaffer, que completou o trabalho da tia quando esta adoeceu após completar o manuscrito:
    A única falha nesta delícia é que tem um fim. Se pudesse escolher qualquer coisa, escolheria uma história sem fim (...). A boa notícia é que, desde que não nos deixemos apanhar grandemente no contínuo de tempo e espaço, o livro continua, de cada vez que um leitor fala dele a outro leitor. O número de membros da Sociedade Literária da Tarte da Casca da Batata aumenta de cada vez que o livro é lido e apreciado. A melhor coisa sobre os livros - e o que os tornou no melhor subterfúgio para os habitantes da ilha durante a Ocupação - é que nos tiram do nosso tempo, lugar e entendimento e nos transportam, não apenas para o mundo da história, mas para o mundo dos nossos companheiros de leitura, que também têm a suas próprias histórias.

    Foi um livro que li num fôlego e que, querendo chegar ao fim, não queria que acabasse. Sei que vou ter saudades destes personagens - gostei tanto de todos, senti-me mesmo parte da Sociedade e adorei cada momento. Vai ser um livro que vou ter de reler daqui a uns tempos - para os reencontrar, lhes dizer a falta que senti deles.
    Não deixem de o ler.

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quarta-feira, 30 de maio de 2018

História da menina perdida, Elena Ferrante (Relógio D'Água)

  
     Acabei hoje de ler o quarto volume da tetralogia A Amiga Genial e antes de partir para umas curtas férias de 4 dias e a lembrança da leitura se desvanecer entre passeios e conversas amigas, decidi, ainda que à pressa, escrever umas notas.
    O facto de num dia de férias ter-me levantado mais cedo só para conseguir acabar de ler este livro confirma que se trata de uma leitura apaixonante, mas, não consigo deixar de achar, ao mesmo tempo um pouco decepcionante. Neste volume Elena e Lila são já mulheres maduras e o facto de Elena ter voltado a viver em Nápoles primeiro, e depois no mesmo prédio da amiga, reaproxima-as, contudo numa relação incompreensível para mim, feita de cumplicidade, mas também de ciúmes, invejas e rancores: (...) ela quer que eu dê aquilo que a sua natureza e as circunstâncias a impediram de dar, e eu que não consigo dar aquilo que ela pretende; ela que se irrita com a minha insuficiência, e por represália me quer reduzir a nada, como fez consigo mesma, e eu que passei meses e meses e meses a escrever, para lhe dar uma forma que não perca os contornos, e lhe bater, e a acalmar, e assim por minha vez me acalmar.
    E é nesse aspeto que porventura esta obra me parece inquinada, pelo retrato que faz da amizade entre elas, que parecendo duradoira é sempre marcada pela competição, pela ambivalência e pelo fato mais que estereotipado de terem amado as duas o mesmo homem. Particularmente surpreendente é a forma distante e quase cruel com que Elena convive e mais tarde escreve sobre o sofrimento de Lila.
   Sobre o percurso das duas, quase que poderíamos pensar que podiam ser a mesma mulher fazendo percursos distintos, uma saindo do bairro e da cidade onde nasceu e cresceu, indo para a universidade, viajando e publicando livros e a outra permanecendo, por vontade própria, no local onde nasceu e viveu, sem estudar, mas conseguindo igualmente  atingir uma situação de desafogo  que lhe permite ajudar quem necessita. Como se fossem duas faces da mesma moeda ou dois caminhos possíveis de seguir. A primeira, Elena, termina por atingir alguma tranquilidade e bem estar emocional, enquanto Lila, por força do drama que vive, está cada vez mais desassossegada e intranquila, até que desaparece. É aliás o desaparecimento dela, reportado pelo filho a Elena, que inicia o primeiro volume e  desencadeia a escrita destes livros, como forma de a tentar recuperar, sem sucesso porém: (...) portanto, para que serviram todas estas páginas. Tinha a intenção de assim a agarrar, de a ter de novo ao pé de mim, e morrerei sem saber se o consegui. À vezes pergunto-me onde foi que ela se dissolveu. No fundo do mar. Dentro de uma fenda ou numa galeria subterrânea, cuja existência só ela conhece (...) Numa das tantas dimensões que nós ainda não conhecemos mas Lila conhece, e agora é lá que está na companhia da filha.
   A situação política, económica e social de Itália, em especial neste volume, é mais do que um cenário onde decorre a ação, porque quer Elena, quer outras personagens, sobretudo Nino e Pasquale, estão diretamente envolvidos e, nesse aspeto, este livro é particularmente interessante.
    O terceiro e quarto volumes foram-me emprestados pelo meu irmão, que, pelos vistos,  rouba frases que escreve no próprio livro. Uma frase que ele roubou tinha igualmente chamado a minha atenção: (as minhas filhas) têm orgulho em mim, no entanto sei que nenhuma delas me suportaria por muito tempo....O mundo mudou de uma forma prodigiosa e pertence cada vez mais a elas e cada vez menos a mim.  

quarta-feira, 23 de maio de 2018

Historia de quem vai e de quem fica, Elena Ferrante (Relogio d' Água)

 
     Já iniciei a leitura do quarto volume, mais uma vez logo depois de acabar o livro anterior. Como se do mesmo volume se tratasse. Acabo um e começo imediatamente a leitura do seguinte, embora me sinta envolvida numa relação ambígua: não consigo parar de ler, mas não sinto que seja uma obra que perdurará ou que justifique a paixão e a projeção que tem tido.
    Neste terceiro volume vamos encontrar as duas protagonistas, Lila e Elena, já adultas, com filhos, e ambas trilhando percursos distintos entre si, mas sobretudo distantes da vida que tinham conhecido no bairro onde nasceram e cresceram. Apesar de uma ter partido e outra ter ficado, a vida das duas é, em termos políticos, sociais, económicos e familiares distinta da maior parte das pessoas com que cresceram. 
    Elena vai para a universidade, publica um livro e casa com um jovem professor universitário oriundo de uma família ligada ao meio académico. Lina separa-se do marido e vai viver com Enzo, um amigo. Durante o dia trabalha em condições miseráveis numa fábrica de enchidos e à noite, juntos, estudam computadores, através da leitura de fascículos e de exercícios que ela vai inventando. 
        Neste livro avoluma-se a estranheza da relação das duas, sempre apresentadas como amigas, reconhecendo-se como tal, embora vivam numa permanente competição e receio recíproco (....aquele incidente convenceu-me de que era melhor não levar Pietro a visitar Lila: conhecia-a bem, ela era má, ia achá-lo ridículo e fazer troça dele....
....a nossa relação já não tinha intimidade. Reduzira-se a notícias condensadas, detalhes escassos, piadas maldosas, palavras em liberdade, nenhuma revelação de facto e pensamentos só para mim.)
    Elena, a narradora, que estudou e que saiu de Nápoles, quando um dia regressa sente-se angustiada porque, apesar de tudo o que fez, sente que tem menos história que a amiga (Quantas coisas perdera ao ir-me embora, julgando que estava destinada a uma vida sei lá como.)
   Este livro decorre nos anos 70, tendo como pano de fundo as lutas estudantis, a emancipação da mulher, o aparecimento da pílula, o debate político e ideológico em Itália, mas também no mundo, o que permitiu que Elena e Lila se envolvessem e descolassem do destino das gerações precedentes. Como se se tratasse de um fresco da vida italiana desses anos, de que elas são protagonistas e testemunhas privilegiadas. A amizade entre elas é apenas um pretexto, uma justificação para que Elena escreva sobre ambas.
   

terça-feira, 22 de maio de 2018

22 DE MAIO - DIA DO AUTOR PORTUGUÊS





Dia 22 de maio assinala-se o dia do autor português. A data foi instituída em 1982 e pretende homenagear os autores portugueses, nas diversas áreas, que contribuem para a cultura e o desenvolvimento da sociedade.
Estes são os autores portugueses que já passaram pelo nosso blogue. Clique no nome para conhecer os livros que lemos de cada um deles ou em “Saber mais” para descobrir um pouco mais sobre a vida e a obra de cada um deles.

terça-feira, 15 de maio de 2018

A Boneca de Kokoschka, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

   Mais uma vez, apaixonei-me pela escrita de Afonso Cruz na primeira página - e, ao longo de todo o romance, lá fui dobrando os cantos das páginas onde encontrava passagens particularmente bonitas. Funciono assim. Leio com muito prazer frases bonitas, pela simples beleza delas e mesmo que, por si só, não constituam um acrescento à história que está a ser contada.

   Numa loja de pássaros é onde se concentram mais gaiolas. (...) E algumas estão dentro dos pássaros e não por fora, como as pessoas imaginam. Porque Bonifaz Vogel, muitas vezes, abrira as portas das gaiolas sem que os canários fugissem (...), desviavam os olhos da liberdade, que é uma das portas mais assustadoras. (...) A gaiola estava dentro deles. A outra (...) era apenas uma metáfora. Bonifaz Vogel vivia no meio de metáforas.

    Neste livro, que são dois (um livro dentro de um livro), e que se passa em três partes, a história é, na verdade um novelo que só se destrinça na última página. Não porque envolva um grande mistério que nos deixe em suspense do princípio ou fim, mas porque são inúmeras as personagens que se atravessam à nossa frente, aparentemente por acaso. Só que, no fim, acabam por estar todas ligadas umas às outras.  Talvez seja esse o mistério afinal: a forma como as personagens encaixam entre si. Confesso que houve alguns momentos em que me perguntei porque tínhamos deixado de seguir tal personagem e passado a seguir outra, com pena por abandonar a primeira, e algum desconforto ao reencontrá-la, páginas mais tarde que constituíram muitos anos. 
    Também porque ao começar o livro assumi que sabia que vidas iríamos seguir, fiquei um pouco desiludida ao perceber que, depois das primeiras páginas, com um miúdo judeu em fuga, escondido debaixo de um alçapão, cuja voz subia pelas pernas de um velho vendedor de pássaros até dentro da sua cabeça, o miúdo já era adulto e casado e o velho era o seu protegido há alguns anos - e o tempo entre os dois momentos é-nos totalmente vedado. Entram então em cena inúmeras personagens que, à partida, parecem largadas ali ao acaso. No entanto, reconciliei-me com o romance nas últimas páginas, mais uma vez cheias de frases lindíssimas e que, além disso, dão o nó final na história, criando os pontos de contacto que pareciam esquecidos, de uma forma muito simples e bonita.

    A visão do mundo não é apenas o que vemos (...), é também o que imaginamos. O tempo não é uma seta do passado para o futuro, o tempo tem muitas dimensões, tal como o espaço. (...) Enquanto não virmos o tempo com todas as suas dimensões, não vemos nada.

    Não tenho forma melhor de resumir do que usar as palavras do próprio autor, num pequeno parágrafo desgarrado a meio do livro:

    O pintor Oskar Kokoschka estava tão apaixonado por Alma Mahler que, quando a relação acabou, mandou construir uma boneca, de tamanho real, com todos os pormenores da sua amada. A carta à fabricante de marionetas, que era acompanhada de vários desenhos com indicações para o seu fabrico, incluía as rugas da pele que ele achava imprescindíveis. Kokoschka, longe de esconder a sua paixão, passeava a boneca pela cidade e levava-a a ópera. Mas um dia, farto dela, partiu-lhe uma garrafa de vinho tinto na cabeça e a boneca foi para o lixo. Foi a partir daí que ela se tornou fundamental para o destino de várias pessoas que sobreviveram às quatro mil toneladas de bombas que caíram em Dresden durante a Segunda Guerra Mundial.

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segunda-feira, 14 de maio de 2018

História do Novo Nome, Elena Ferrante (Relógio D' Água)

    Mal acabei de ler o primeiro volume da tetralogia A Amiga Genial peguei no segundo volume, História do Novo Nome, que tem um subtítulo ou um capítulo único: Juventude. É a continuação do primeiro livro, daí que me tenha surpreendido que, tal como no anterior, este livro se inicie com um índice das personagens e com a síntese dos acontecimentos do primeiro volume. Ao contrário de outras obras publicadas em vários volumes, esta não possui autonomia, ou seja, seria impossível ler o segundo livro e compreendê-lo sem ler o primeiro.
    A mestria da autora revela-se logo no início, depois de relatar um episódio que se passa um pouco mais tarde, regressamos ao casamento de Lila e à questão que tinha ficado em suspenso quando concluímos a leitura do primeiro livro e que é determinante para perceber as relações que se estendem desde então entre as várias personagens. 
   Mantém-se a  amizade entre Elena -Lenú - e Lila,  mesclada por outros sentimentos, sobretudo ressentimento e inveja, enquanto a vida de ambas  diverge cada vez mais. Mas é como se fossem duas faces da mesma moeda, duas possibilidades de vida em que cada uma, de alguma maneira, se revê na outra:
    "Compreendi que fora até lá cheia de soberba e dei-me conta de que - de boa fé, é certo, com afeto - fizera aquela viagem toda sobretudo para lhe mostrar aquilo que ela perdera e que eu ganhara. Mas ela apercebera-se disso desde o instante em que eu lhe aparecera à frente, e agora, arriscando-se a ter atritos com os colegas de trabalho e a ser penalizada, estava a reagir, explicando-me de facto que eu não ganhara nada, que no mundo não havia coisa nenhuma para ganhar, que a sua vida era tão cheia de aventuras variadas e insensatas como a minha, e que o tempo simplesmente passava sem fazer qualquer sentido, e que era bom vermo-nos só de vez em quando para ouvirmos o som louco do cérebro de uma repercutir-se dentro do som louco do cérebro da outra."(pg. 368).
    
    Confesso que me sinto dividida, porque não consigo parar de ler mas, ao acabar o o segundo volume, sinto, como quando acabei o primeiro, que ambos se esgotam no destino destas jovens e no circulo reduzido das personagens que as acompanham, em particular os residentes no bairro napolitano onde nasceram, e nas questiúnculas entre eles. Por outro lado é quase como se estivesse a ver um filme neo-realista italiano. Lemos e imaginamos as personagem, os locais, as roupas, os sentimentos até. Há uma densidade nas pessoas, na descrição do quotidiano das suas vidas e das suas expetativas, que permite que o leitor se sinta envolvido ou mesmo presente.
    
    Mais uma vez, acabei de ler este livro e comecei imediatamente a ler o terceiro.

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