domingo, 11 de julho de 2010

Do que eu gosto em Saramago

Nos últimos dias muito se tem escrito e dito sobre Saramago, sobre a vida, sobre a obra, sobre os amores, sobre a família e, claro, sobre a morte.
A morte dele surpreendeu-me durante uma conferência, transmitida por uma jovem, muito comovida. Também a comoção dela me surpreendeu.
Acabei de ler recentemente o livro Caim que, confesso, não gostei. Mas, independentemente de alguns livros que me desapontaram, gosto do Saramago. Gosto da paixão dele por Pilar - só num filme ousaríamos sonhar com um amor tão forte que ao fim de vários anos mantivesse todos os relógios deliberadamente parados a marcar a hora do primeiro encontro.
Gosto da forma desassombrada como relatava ter-se tornado escritor profissional ou mesmo ganho o prémio Nobel.
Gosto do vestido que a Pilar usava no dia em que lhe foi entregue o Prémio Nobel (o vestido vermelho tinha uma frase bordada extraída do O Evangelho Segundo Jesus Cristo "Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti, Quero estar onde estiver a minha sombra, se lá é que estiverem os teus olhos.").
Gosto da forma como foi sempre manifestando a sua posição, como se recusou a acomodar-se ao pódio tranquilo do Nobelizado ou ceder à exigência tranquila da idade e, a nível nacional ou internacional, continuou empenhado.
No amor, como na intervenção política ou cívica, a idade nunca contou.
E quanto aos livros, gosto muito do Memorial de Convento (que estou a reler)e Levantados do chão. Gostei muito da concepção inicial de alguns dos seus livros, "Ensaio sobre a cegueira", "Ensaio sobre a lucidez" e "A jangada de pedra", mas confesso que em todos eles, de alguma forma, o desfecho me decepcionou.
Mas também em todos eles se reconhece a marca única da ideia, da narração e da escrita.
Sei que continuarei a ler os seus livros e a reler alguns e que ainda mantenho presente o arrepio que me percorreu o corpo quando atravessei a soleira da porta da sua biblioteca em Lanzarote, penetrei naquela luminosidade amortecida pelos livros e encontrei a secretária que nos últimos tempos utilizava para escrever.
Tenho pena que não possa escrever mais livros mas ainda há muitos que me faltam ler.

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