Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


sábado, 15 de março de 2014

O Filho Perdido de Philomena Lee, Martin Sixsmith (Planeta)

    Não vi ainda o filme "Philomena", protagonizado por Judi Dench, mas quando soube que havia um romance por trás desta história verídica e, mais ainda, quando soube a base da história - tráfico de crianças pela igreja católica irlandesa durante o século XX - fiquei extremamente curiosa. Pelo pouco que percebi pelo trailer, o filme é a busca de Philomena pelo seu filho, dado para adoção contra sua vontade, com ajuda de um jornalista. Esse mesmo jornalista é quem escreve o presente livro que, no fundo, é uma biografia desse rapazinho perdido. Fiquei um pouco receosa, de início, que a narrativa fosse simplesmentea recolha dos factos, mas o livro está muito bem escrito e a biografia é romanceada. Goste muito do livro, mas é um livro duro e comovente, de uma vida difícil, ainda mais porque é um história verídica.
   
    Philomena Lee tinha 18 anos quando cedeu aos encantos de John McInerney e engravidou. Foi enviada para a Abadia Sean Ross, em Roscrea, para ter o filho bastardo e desaparecer para o mundo, a fim de evitar a vergonha da família. 

A absoluta e total solidão de todas as centenas de raparigas daquele lugar, e de outras nas mesmas condições por toda a Irlanda, estava gravada a ferro e fogo no rosto de Philomena. Mandadas embora por causa de um pecado que mal sabiam ter cometido, não passavam em muitos casos de meras crianças sujeitas a um castigo cruel e adulto.

     Com a promessa de uma eternidade passada no Inferno à custa do pecado cometido, as raparigas opunham pouca ou nenhuma resistência a assinar os papéis para entregarem os filhos. Mas ficavam destroçadas. O filho de Philomena, Anthony, ficou com a mãe durante três anos, e depois foi enviado para a América, pelo simples acaso de ser inseparável de Mary, que Margaret Hess tinha ido buscar. Os americanos eram quem mais procurava estas crianças, em trocas de "oferendas" aos conventos e da garantia da educação das crianças segundo a fé cristã.
    Anthony Lee passa a Michael Hess na nova família e cresce como uma criança encantadora, na sua ânsia para agradar e não voltar a ser abandonada. Durante toda a vida, o "abandono" por parte da mãe biológica é uma presença constante, que o grita dentro de si que nunca será merecedor de felicidade. Acaba por se tornar uma figura muito relevante no partido republicado de Reagan, um especialista na luta contra o tráfico de influências. Mas a velha mágoa persiste, acrescida de outra:

Era uma homem gay num partido homofóbico, um órfão desarreigado num mundo de certezas enraizadas.

É um livro que foca a mágoa interior, a política, a homossexualidade, a SIDA e, claro, os abusos da Igreja Católica.

2 comentários:

  1. Acabei de assistir o filme, lindo e emocionante a história. Quantas destas mesmas histórias teremos em nosso país?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. De facto é muito triste saber que histórias destas foram (e, com algumas diferenças atualmente) e ainda são uma realidade. O livro não foca tanto a procura da mãe, como acontece no filme. Como disse no resumo, acaba por ser a biografia do filho. Se tiver curiosidade em saber o percurso dele, aconselho a leitura! ;)

      Eliminar