domingo, 16 de novembro de 2014

O Pintassilgo, Donna Tartt (Editorial Presença)

     Este foi um livro que me cativou logo nas primeiras páginas. Está escrito de uma forma extremamente envolvente e completa, que nos faz sentir como personagens integrantes na trama. 
     Theodore Decker (Theo) tem treze anos quando é suspenso na escola por ser apanhado com um colega a fumar. No dia da reunião com o diretor, a mãe tira um dia de trabalho. Saem cedo de casa, com a mãe tão zangada com ele que mal lhe fala, e no caminho começa a chover, o que os leva a abrigarem-se no Metropolitan Museum of Art. Lá dentro, a mãe quer ver especialmente dois quadros: a Lição de Anatomia, de Rembrandt, e O Pintassilgo, de Fabritius (aluno de Rembrandt e professor de Vermeer). Enquanto contemplam este quadro, aproximam-se deles um homem velho e uma rapariga ruiva, que capta a atenção de Theo; o rapaz vê surgir a oportunidade de lhe falar quando a mãe decide voltar atrás para olhar novamente para a Lição de Anatomia. Os seus olhos cruzam-se no momento em que se dá a explosão que mata a mãe de Theo.
    Quando recobra os sentidos, Theo é aparentemente a única pessoa viva até dar com o velho que assumiu ser o avô da rapariga ruiva. O homem agarra o braço de Theo e pergunta por Pippa; está muito confuso e confunde o rapaz com alguém do seu passado. Na sua confusão insiste para que ele pegue no quadro O Pintassilgo e o leve consigo, e entrega-lhe um anel dizendo para o dar ao Hobie, da loja Hobart e Blackwell.
     Theo procura a mãe, sem sucesso, e convence-se que ela voltou para casa. Encaminha-se para lá e é só pelas duas da manhã que percebe que a mãe não volta. Aparecem lá em casa dois assistentes sociais que, por desconhecerem o paradeiro do pai do rapaz (um homem bêbado que saíra de casa havia mais de um ano), o levam para casa da família abastada de um amigo que o acolhe temporariamente - os Barbours.
     "A ideia de regressar a qualquer tipo de rotina normal parecia desleal, errada. Continuava a ser um choque de cada vez que o recordava, uma nova bofetada: ela tinha desaparecido. Cada novo acontecimento - tudo o que fizesse no resto da minha vida - só nos separaria cada vez mais (...) A cada dia por todo o resto da minha vida ela só estaria cada vez mais distante." 
    A vida de Theo desmorona com a morte da mãe e ele afunda-se cada vez mais, sucumbindo às drogas como escape para a sua dor e, mais tarde, a negócios paralelos ilícitos. E durante todo este tempo, além da sua agonia permanente pela morte da mãe, da qual procura desesperadamente fugir e refugiar-se, escondendo-a de si próprio, esconde de quem o rodeia um segredo ainda maior: o quadro que roubou do museu e que nunca chegou a devolver. Como não poderia deixar de ser, esse segredo acaba por vir ao de cima e de o levar ao submundo do crime de uma forma que ele nunca esperaria.
     Pontos negativos? De todo o livro, o que menos gostei foi a parte final. Como já mencionei, o livro é extremamente completo e não sentimos que falte informação ou densidade em nenhum momento... Exceto no fim. Desapontou-me, pareceu-me abreviado, abrupto...
     Tenho também de apontar, mais uma vez, a tradução. A tradutora fez muitas traduções literais quem para quem conhece a língua original, permitem saber exatamente o que estava escrito, fugindo às expressões correspondentes em português. Além disso, tem mesmo erros de português, o que considero inadmissível numa editora como a Presença, e mais ainda quando o trabalho é a tradução de um livro que ganhou o prémio Pulitzer!
  

1 comentário:

  1. O livro cativou-me logo nas primeiras páginas. Apesar do peso e da extensão (tem 893 páginas) arrastei-o comigo sempre que pude e fui apagando a luz cada vez mais tarde porque era difícil parar a leitura. Contudo, a última parte é muito distinta. Passamos dos diálogos e da ação para um monólogo final (moral?) algo extenso. Já mesmo a parte que se desenrola em Amsterdam, quer a parte em que tentam recuperar o quarto, quer depois, quando Theo se encontra sozinho e doente no quarto de hotel, me parecem menos felizes que os capítulos anteriores.
    O roubo do quadro é o cerne deste romance (a pintura tinha-me feito sentir menos mortal, menos vulgar)e, desde o início, me pareceu que seria parte mais difícil de resolver o que poderá explicar algumas fragilidades da parte final.

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