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A nova rubrica quinzenal da nossa página afiliada, Ponto&Vírgula, começou com o testemunho na nossa co-autora Ana Vargas.

Acompanhe a partir daqui os textos publicados:

#1 Leio, logo... crio laços, por Ana Vargas (24/04/2018)
#2 Leio, logo... empilho, por Sofia Guedes Vaz (08/05/2018)
#3 Leio, logo… sonho, por Alexandre Gusmão (22/05/2018)
#4 Leio, logo… exploro, por Lucinda Afreixo (05/06/2018)
#5 Leio, logo... preservo, por Manuela Pires (19/06/2018)
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quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Persépolis, Marjane Satrapi (Contraponto)

      
    Retomei este ano, com alguma inconstância, aulas de francês, por pura saudade de ouvir, ler e falar francês. Tive a sorte de ter como professora uma iraniana que estudou na Sorbonne e que depois se radicou em Portugal. Quando lhe pedi que nos sugerisse livros e autores persas, de imediato falou nos livros de Marjane Satrapi e em especial deste, Persépolis, na convição que teríamos visto o filme (https://www.youtube.com/watch?v=5Q_WXPXq-WM),
  Eu não tinha visto o filme e devo confessar que se tivesse sabido antecipadamente que era de banda desenhada não o teria de imediato alugado. E teria perdido um grande filme, admito. Não tenho nada contra banda desenhada. Durante anos, fui uma constante e determinada leitora de BD, começando pelos álbuns da Disney, Astérix, Tintin, Lucky Luke, passando pela inefável Mafalda e, mais recentemente, pela Cathy. Mas são sempre leituras rápidas, distraídas e a que recorro cada vez menos.
   O filme é fantástico. Depois do filme decidi comprar o livro que é, naturalmente, mais completo. O desenho, quer no filme, quer no livro, é sóbrio, a preto e branco, com poucos pormenores, onde as personagens e sobretudo os seus olhos, exprimem tudo. Persépolis retrata a vida da autora, nascida em 1970, tendo por isso assistido à revolução islâmica (1979) e depois à guerra. A partida do Xá é acolhida com imensa alegria pela família de Marji e o país vive um curto período de completa liberdade. Nas eleições que se seguem e perante a passividade dos restantes actores políticos, os representantes da república islâmica ganham com 99,9% dos votos. Tudo muda a partir desse momento, as universidades são encerradas, as escolas passam a ser separadas, as mulheres têm de cobrir os cabelos com véus (porque o cabelo das mulheres emite raios que excitam os homens) os homens não podem usar camisas de manga curta. E passam de três mil presos no tempo do Xá para trezentos mil. À instauração do novo regime segue-se a guerra com o Iraque. Quando Marji completa 14 anos os pais decidem enviá-la para Áustria ao cuidado de uma amiga da mãe. A adaptação não é fácil, terminando por se envolver na droga e viver algum tempo na rua. Por sorte desmaia em pleno dia e é enviada para um hospital onde é tratada. Decide então regressar ao seu país mas a adaptação não é, igualmente, fácil. Passa por uma depressão gravíssima de que se cura. Torna-se instrutora de aeróbica, vai para a faculdade e depois de um casamento falhado parte para França.
    A força do livro reside no facto de ser universal. Embora a vida de Marji tenha como pano de fundo um regime terrível e castrador - como lhe diz a mãe no final: A nossa revolução fez-nos recuar cinquenta anos. Vão ser precisas várias gerações para evoluirmos - a vida de Marjane tem vários pontos em comum com as pessoas da mesma geração ou mesmo mais jovens. A relação com os pais, a especialissima relação que mantém com a avó, as relações afectivas, os livros, os autores e as suas referências poderiam ser transplantadas para outras latitudes e longitudes e manter-se-iam pertinentes.
    Um livro e um filme excecionais.

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