domingo, 22 de março de 2015

Stoner, John Williams (D. Quixote)



    Já tinha decidido que deixaria de comprar livros pelas indicações das capas que os identificam como o melhor livro do ano ou da década. Stoner traz na contracapa uma citação do New Yorker deste tipo (O melhor romance americano de que nunca ouvimos falar...), mas foram as indicações na capa, todas de escritores de que gosto, que me surpreenderam e me levaram a folheá-lo. A leitura quase obsessiva começou nesse momento.
    E terminada a leitura volto a interrogar-me o que faz um bom livro. O que faz um leitor não conseguir pousar um livro e continuar a lê-lo quase sem interrupção. Neste caso não é, seguramente, a história que se pode contar em poucas linhas, e que é contada logo no início do livro: Stoner, filho de pais agricultores, tem a  possibilidade de continuar os estudos e na faculdade apaixona-se pela literatura e pelo ensino. Depois de concluir os estudos segue a carreira de professor na mesma universidade, numa vida absurdamente monótona, marcada por um casamento sem paixão. É, no entanto, por esse casamento que termina por perder a relação com a filha e com Katherine Driscoll por quem se apaixonou.
    Mas talvez não se trate de recear arriscar o casamento mas a vida que seguiu, de deixar de ser quem era e o que o definia (...concentrava todas as suas energias no momento presente do seu trabalho e esperava ser finalmente definido pelo que fazia.) E o que fazia era dar aulas na universidade que via como um abrigo, um refúgio do mundo, para os desalojados, os enfermos. Essa ideia foi-lhe aliás transmitida por um amigo, um colega que morreu na I Guerra, que disse: É para nós que existe a universidade, para os desalojados do mundo.
    E é dessa forma que Stoner se vê. Apaixonou-se pela literatura, pelo ensino e sabia que não tinha outro lugar no mundo. Por esse lugar, esse abrigo que ele defende contra o mundo, ele resigna-se e aceita as condições que a mulher lhe impõe em casa e o diretor na universidade.
    O próprio livro aborda a  estranheza da paixão pelos livros e pela literatura:
   Esse amor à literatura, à língua, aos mistérios da mente e do coração que se revelavam nas ínfimas, estranhas e inesperadas combinações de letras e palavras, na tinta mais negra e fria....esse amor que escondera como se fosse ilícito e perigoso começou ele então a mostrar, hesitantemente a princípio e depois com ousadia e, por fim, com orgulho. 
   
    Talvez a razão para a qualidade e a atração por este livro residam na qualidade da escrita aliada à reflexão sobre a vida, o amor, a amizade e a morte, tornando quase irrelevantes o espaço e tempo em que a vida de Stoner decorre. Não resisti a roubar algumas frases:
    Chegara àquela idade em que lhe ocorria, com crescente intensidade, uma pergunta de uma simplicidade tão avassaladora que não tinha como a enfrentar. Dava por si a perguntar-se se a sua vida valeria a pena, se alguma vez valera a pena. Era uma pergunta, desconfiava ele, que assolava todos os homens a dada altura; perguntou-se se os assolava com uma força tão impessoal como o assolava a ele. A pergunta acarretava uma tristeza, mas era uma tristeza geral que (pensava ele) pouco tinha que ver consigo ou com o seu destino em particular (...) que, a longo prazo, todas as coisas, incluindo a aprendizagem que lhe permitia chegar àquela conclusão, eram fúteis e vazias e, por fim, reduziam-se a um nada que já não conseguiam alterar.
     (...) 
    No seu quadragésimo terceiro ano de vida, William Stoner aprendeu o que outros, muito mais jovens do que ele, tinham aprendido antes de si: que a pessoa que amamos no início não é a mesma que amamos no fim, e que o amor não é uma meta e sim um processo através do qual uma pessoa tenta conhecer outra. 
     Há uma amargura no livro, porque o autor, também professor universitário, nas palavras iniciais com que resume a vida de Stoner, diz que poucos alunos se lembravam dele  e que os colegas raramente falam dele agora. Uma vida que não valeu a pena.
    Uma palavra final para a história do próprio livro que, publicado em 1965, caiu no esquecimento de onde é resgatado quase 50 anos depois, quando é traduzido para francês, sendo em 2013 eleito o melhor livro do ano pelos leitores da livraria britânica Waterstones.
    Um livro excecional a não perder.


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