Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

Ver: Amor, David Grossman (Dom Quixote)

    Seja o que for que eu escreva acerca deste livro, nunca conseguirei dar uma ideia exata do que poderão esperar dele. Dizer que é um livro extremamente imaginativo sobre o Holocausto e as suas implicações nas gerações seguintes é simplesmente redutor. Penso que nunca tinha lido um livro com tantas histórias dentro de histórias e que mesmo assim termina por conseguir que todas elas - e as suas personagens - se entrelacem num único enredo. Dividido em quatro partes - "Momik", "Bruno", "Wasserman" e "A enciclopédia completa da vida de Kazik" - o romance é, em meu entender, a procura de Momik, em adulto, do caminho que levará a tornar-se escritor. 
    Na primeira parte, Momik é-nos apresentado como um rapazinho judeu, filho de sobreviventes do Holocausto, assombrado pela "Besta nazi" que lhe disseram poder surgir de qualquer criatura viva. Momik chama a si a missão de enfrentar a Besta e de a destruir para que deixe de aterrorizar a família.
    Entretanto, é deixado em sua casa o irmão da avó, que Momik "adota" como seu avô - Wasserman. O avô terá enlouquecido nos seus tempos no campo de concentração, onde, por não conseguir morrer, se torna o "judeu doméstico" do oficial Neigel, responsável pelo campo e que, em criança, lia os que Wasserman-Scheherazade escrevia em revistas: As Aventuras dos Meninos do Coração de Oiro. Acordam então que Wasserman escreverá a última aventura dos meninos e que a contará todas as noites a Neigel, em troca de este o tentar matar também todas as noites. Wasserman terá ficado retido na sua própria historia, que repete ininterruptamente a um Herrneigel (Herr Neigel) imaginário:

   ... mas Momik viu logo que o avô também não e nenhum fracalhote, longe disso, e quando lhe tocam na história fica logo outro homem! Sim, o avô agarrou na perna de galinha, agitou-a no ar e gritou no seu hebraico que não permitia que Herrneigel se imiscuísse na história, porque a história era toda a sua vida e não tinha mais nada além dela, e Momik, que de medo quase fez nas calças, viu pela expressão do avô que o Nazikaputt tinha ficado um pouco assustado e cedera, porque o avô parecia mesmo convincente e cheio de razão, e então, de repente, o avô virou a cara da parede e olhou para Momik com o seu olhar vazio, e nesse momento Momik teve a certeza absoluta de que, se o avô quisesse, era capaz de o atrair para dentro da sua história, como fizera com Herrneigel (...) e nunca mais o encontrariam ...

    A terceira parte, sobre a relação de Wasserman e Neigel, bem como a segunda, acerca de Bruno Schulz, são escritos por Momik já adulto e em busca de material para os seus romances. O último capítulo, escrito sob a forma de enciclopédia reúne vários personagens dos capítulos anteriores e conta o desfecho da história de Neigel e Wasserman e da última aventura dos Meninos do Coração de Oiro: o bebé Kazik.
    Extremamente bem escrito e sem dúvida alguma fruto de uma imaginação muito fértil, o livro é confuso e muito longo, e confesso que me cansou. Não deixa de ser uma obra riquíssima.

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