sexta-feira, 31 de março de 2017

O vendedor de passados, José Eduardo Agualusa (Edições D. Quixote)

    É tão bom apaixonarmo-nos por um livro. A este livro cheguei através do filme. Vi primeiro a adaptação ao cinema de Lula Buarque de Hollanda e fiquei fascinada pela história. No final verifiquei que se tratava de uma adaptação de um romance, com o mesmo nome, de José Eduardo Agualusa. Não me recordo detalhadamente do filme, que já vi há algum tempo, mas embora a ação decorresse no Brasil e não em Angola  e os passados e personagens fossem distintos, a história é similar: o passado comprado (criado) transforma a pessoa e torna-se mais real que o passado vivido. Em ambos,  o vendedor de passados é surpreendido pela transformação que se gera no seu cliente,  que incarna a personagem que resultou daquele passado e vai reforçando e consolidando desta forma a sua história. 
    O que é afinal um vendedor de passados?
    (...) vende-lhes um  passado novo em folha. Traça-lhes a árvore genealógica. Dá-lhes as fotografias dos avôs e bisavôs, cavalheiros de fina estampa, senhoras do tempo antigo.
    Mas criar um passado não nos liberta do que vivemos, de quem somos e do que fomos. E é nesse encontro entre passados inventados e verdadeiros que o livro  ganha uma dimensão e consistência superior ao filme. Neste último, a questão central resultava da absorção do passado comprado como se de facto tivesse sido vivido. No livro, apesar do passado comprado, o passado real persiste e persegue as pessoas.
    E ao lado desta história, a osga que vive no teto da casa de Félix Ventura, vai testemunhando e relatando as visitas e a crescente paixão que aquele vai vivendo por Ângela Lúcia, e os sonhos que vai tendo. E acompanhamos a criação do passado do Ministro. E suspeitamos, como Félix e Ângela, que o Presidente foi substituído por um sócia. E interrogamo-nos sobre as ameias do Castelo de S. Jorge....
    Apesar da escrita simples e leve do livro há muitas histórias nele, verdadeiras e inventadas.
    Acabo com uma frase que a mãe da osga, na sua vida anterior, lhe dizia:
 
    Quando algo nos parece muito belo pensamos que só pode ser um sonho e então beliscamo-nos para termos a certeza de que não estamos a sonhar - se doer é porque não estamos a sonhar. A realidade fere, mesmo quando, por instantes, nos parece um sonho. Nos livros está tudo o que existe, muitas vezes em cores mais autêntica, e sem a dor verídica de tudo o que realmente existe. Entre a vida e os livros, meu filho, escolhe os livros.

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