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A nova rubrica quinzenal da nossa página afiliada, Ponto&Vírgula, começou com o testemunho na nossa co-autora Ana Vargas.

Acompanhe a partir daqui os textos publicados:

#1 Leio, logo... crio laços, por Ana Vargas (24/04/2018)
#2 Leio, logo... empilho, por Sofia Guedes Vaz (08/05/2018)
#3 Leio, logo… sonho, por Alexandre Gusmão (22/05/2018)
#4 Leio, logo… exploro, por Lucinda Afreixo (05/06/2018)
#5 Leio, logo... preservo, por Manuela Pires (19/06/2018)
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terça-feira, 9 de janeiro de 2018

A Guerra do Fim do Mundo, Mario Vargas Llosa (Livros RTP)


     A guerra do fim do mundo foi mesmo uma guerra e, pela  descrição do que se passou, parece absolutamente adequada a designação. Eu nunca tinha ouvido falar desta guerra. Comprei o livro atraída pelo resumo na contracapa que começa assim:
    "Em finais do século XIX, no Brasil, no sertão da Baía, um vasto movimento popular formado em torno de um místico - António Conselheiro - funda uma sociedade à margem do mundo oficial. O Governo do Rio de Janeiro reage, enviando uma pequena força militar para "repor a ordem". Mas a resistência foi imediata e eficaz, obrigando a tropa a fugir...."
    Lido o livro, as suas 620 páginas, tenho que dizer que é um livro fascinante, quer pela história que narra, quer pela forma como o faz. Quanto à história, que é, ainda hoje, um episódio importante da história brasileira, não surpreende o impacto que teve e ainda tem. Para além de integrar o currículo da disciplina de história no Brasil, deu origem a uma extensa bibliografia e cinematografia.
    O livro Os Sertões, publicado em 1902, de Euclides da Cunha, um jornalista que cobriu esta guerra como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, fascinou Mario Vargas Llosa e outros autores que escreveram livros sobre esta guerra, como Sándor Márai, - Veredicto em Canudos -, que depois de o ler disse que era como se tivesse estado no Brasil.

     A guerra do fim do mundo acontece em Canudos, no interior da Bahia, no nordeste brasileiro. Uma região que, à época, se caracterizava por enormes latifúndios e onde se vivia uma situação de grande pobreza e desemprego. No país tinha sido recentemente abolida a escravatura e proclamada a república. A situação a nível nacional e regional constituiu terreno fértil para que um indivíduo, o Conselheiro, conseguisse atrair milhares de pessoas, pobres, miseráveis, que o seguiram e se foram fixando em Canudos:
   (...) O Conselheiro explicou, sem animosidade, o que acontecia. (...) Exaltando-se, intimou-os a não se renderem aos inimigos da religião, que queriam mandar de novo os escravos para os cepos, esmifrar os moradores com impostos, impedi-los de se casarem e serem enterrados pela Igreja, e confundi-los com armadilhas como o sistema métrico, o mapa estatístico e o recenseamento, cujo verdadeiro desígnio era enganá-los e fazê-los pecar. (...)
    Mas a sociedade que começaram a construir em Canudos era diferente de tudo o resto:
    (...) Podia ter qualquer coisa de primitivo, ingénuo, contaminado de superstição, mas não havia dúvida: era também algo de diferente. Uma cidade libertária, sem dinheiro, sem donos, sem polícias, sem padres, sem banqueiros, sem fazendeiros, um mundo construído com a fé e o sangue dos mais pobres. (...)
    E é esta incongruência total que gera um conjunto de equívocos e receios, que são aproveitados por forças politicas nacionais, a que os habitantes de Canudos são totalmente alheios e que ignoram até, que leva a república a decidir combatê-los e derrotá-los:
    (...) Não é absurdo?  Vão ser sacrificados como monárquicos e anglófilos, eles, que confundem o imperador Pedro II com um dos apóstolos, que não fazem a menor ideia de onde fica a Inglaterra e que esperam que o rei Dom Sebastião saia do fundo do mar para os defender. (...)
    E foram de facto massacrados todos os habitantes de Canudos e as casas destruídas. Mas não foi fácil. Ofereceram uma resistência inesperada ao exército tendo havido necessidade de quatro expedições contra estas pessoas que combatiam com pedras, fisgas, facas e as armas que eram roubadas aos militares que matavam.
    Mas se a história justifica por si só a atenção que lhe tem sido dada ao longo dos tempos, a mestria com que é relatada é inegável. Vamos conhecendo-a através de diferentes pessoas, com abordagens e perspetivas distintas, e vamos seguindo a leitura pela necessidade imperiosa, fundamental de conhecer os respetivos destinos. Quando acabamos o livro, não fica apenas a história, mas as personagens, como Jurema, o Anão, o Leão de Natuba, a Maria Quadrado. Uma imensa galeria de personagens que conseguimos quase vislumbrar.

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