domingo, 7 de janeiro de 2018

Anna Karénina, Lev Tolstoi (Relógio D'Água)

    Comecei este romance no final do verão de 2017 e terminei-o na manhã de 1 de janeiro deste novo ano. Demasiado tempo para mim, sobretudo considerando que, (em teoria) só demoro a ler livros que não me mantêm interessada. Não foi o caso. Este livro é muito bom e, sem dúvida, deve ser lido. Mas é enorme. E refiro-me mesmo à parte física; como a maior parte do meu tempo de leitura acontece nos transportes, um livro tão grande e pesado traz alguns problemas de logística. Por isso, arrastei a leitura; mas cada vez que a retomava, queria continuar.
    Pensei que houvesse já uma revisão feita, aqui no blogue, mas aparentemente o livro foi lido pela minha mãe em 2009 - antes de o termos iniciado.
   Antes de começar a ler tinha já uma ideia dos traços gerais da história de Anna Karénina, por ser o clássico de literatura que é e porque já tinha visto o filme em 2012 (cujo momento alto foi quando uma rapariga atrás de nós comentou, preocupada "Mau...queres ver que isto ainda vai acabar mal?"). Como é habitual, o livro é muito mais rico em detalhes. O que estranhei foi que, para mim, Anna não é a figura central do romance. O desenrolar do seu drama é-nos mostrado em curtos retalhos que surgem esporadicamente entre outras histórias, particularmente a de Lévin e Kiti.

   O romance começa com uma disputa entre o irmão de Anna e a sua mulher, Dolli, e Anna é chamada para apoiar na sua reconciliação. Por essa altura, a irmã de Dolli, Kiti, recebe as atenções do Conde Vronski e pensa que, em breve, ele a pedirá em casamento. Por isso, quando Lévin aparece na cidade, depois de muitos meses no campo a tomar coragem para pedir a mão de Kiti, esta recusa-o, ainda que com muita pena, pois tem-lhe muito carinho. Mas Vronski esquece Kiti quando conhece Anna e é como se uma força maior os atraísse um para o outro, por mais que Anna procure libertar-se (Ele dissera precisamente aquilo que a alma dela desejava mas que a sua razão temia), uma vez que é casada e tem um filho do qual não se imagina abdicar.
    E, portanto, muitas vidas começam por ser como que destruídas por esta inevitável união. A antecipação de uma possível desgraça começa cedo, no leitor, alertado por Betsi quando esta diz a Anna:
    Está a ver, uma mesma coisa pode ser olhada tragicamente e fazer dela um tormento, e pode-se olhá-la com simplicidade e até com alegria. Talvez a sua tendência seja olhar para as coisas demasiado tragicamente.
    
  No entanto, como comentei acima, não entendo Anna como a personagem central, ainda que seja a mais trágica. Diria até que, para mim, a personagem principal é Lévin, com a sua incessante procura pelo significado da vida e da justiça, do trabalho e da virtude. E é dele que vem uma das minhas passagens favoritas do livro:

    (...) não apenas o orgulho da razão. Mas também a estupidez da razão. E acima de tudo a velhacaria, precisamente a velhacaria da razão. Precisamente a trapaça da razão.

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