Prémio Nobel da Literatura 2017

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Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Rumo ao farol, Virginia Woolf (Relógio d'Agua)

   Ler este livro de Virginia Woolf não é tarefa fácil, embora nos deslumbre desde o início. É como seguir a tecitura de uma renda de bilros minuciosamente feita.
   O livro, embora tenha como título e ação principal a vontade de rumar ao farol do filho mais novo do casal Ramsay, só concretizada anos mais tarde, acompanhado apenas por uma irmã e pelo pai, por quem nutre um sentimento ambíguo entre a raiva e a admiração, é um livro sobre relações familiares e o papel das mulheres.
   Duas mulheres ocupam o palco, Mrs. Ramsay, uma mulher lindissima, casada, mãe de oito filhos e Lily Briscoe uma pintora solteira, amiga da família. Mrs. Ramsay é o centro à volta  do qual tudo gira, os filhos, os amigos, o marido, as empregadas. Dela, nunca saberemos o nome próprio, como se através do casamento o tivesse perdido, sendo incorporada num colectivo, em que só aparentemente ela perdeu a identidade, que mantém através do pensamento e das cartas que redige.(Vinham estonteadamente ter com ela, porque era a mulher, durante todo o dia, por esta e aquela razão; os filhos iam crescendo; muitas vezes não se sentia mais do que uma esponja encharcada de emoções humanas).
   Lily Briscoe é sempre assim designada ou, mais simplesmente, apenas por Lily, sem que seja precedida por qualquer outra fórmula, como se o facto de permanecer solteira lhe conferisse uma identidade própria.
Lily permanece sózinha por vontade, ainda que a tentem induzir - especialmente Mrs. Ramsay - ao casamento:
   Todavia, dizia de si para si, desde a alvorada dos tempos que se têm entoado odes ao amor; se têm acumulado grinaldas e rosas; e, se se perguntasse, nove de entre dez pessoas declarariam que nada mais desejavam senão isso mesmo; enquanto as mulheres, a avaliar por sua própria experiência, a todo o instante sentiriam Não era isto que eu queria; nada existe de mais enfadonho, de mais pueril, de mais desumano do que o amor; todavia é também belo e necessário.
   Embora referido sempre como um livro sobre as relações familiares, pareceu-me mais um livro sobre os vários papeis da mulher, como se Mrs. Ramsay e Lily fossem duas faces de uma mesma moeda.
   Uma palavra final para a tradução de Mário Claúdio. Ler esta tradução foi como lê-lo escrito originalmente em português.

5 comentários:

  1. Estou neste momento a ( tentar) ler este livro, sinto-me muito pequena em relação a este tipo de escrita, perco a concentração facilmente, mas estou a fazer um esforço.... Há alguma maneira de ir discutindo a obra aqui no blog?

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  2. Estou neste momento a ( tentar) ler este livro, sinto-me muito pequena em relação a este tipo de escrita, perco a concentração facilmente, mas estou a fazer um esforço.... Há alguma maneira de ir discutindo a obra aqui no blog?

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    1. Só agora verifiquei que minha resposta não foi enviada, pelo que a reenvio:
      Apesar de ter lido o livro há já algum tempo teria todo o prazer em discuti-lo. Penso que é um livro que não é fácil de ler, mas que é belissimo, quer pela escrita, quer pela narrativa, quer pelas personagens.
      Como pode ver pela mensagem infra, a minha leitura do livro já foi contestada, mas penso que a virtude de um livro é permitir a cada leitor a sua leitura própria.
      Boa leitura...

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  3. O livro não se restringe à abordagem do papel da mulher - isso é apenas um detalhe.
    E a estrutura narrativa, a importância do segundo momento da narrativa.
    E o significado do encontro com o pai, somente?

    Rafalea

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    Respostas
    1. Eu admito que a minha leitura pode ser redutora. Sei que o livro é frequentemente descrito como um livro sobre relações familiares, mas surpreendeu-me a densidade das personagens femininas, a sua complementaridade. Até a sua cumplicidade.
      Impossível ignorar a parte final do livro, a concretização do passeio com o pai, mas que acontece justamente quando a mulher já desapareceu.......

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