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A nova rubrica quinzenal da nossa página afiliada, Ponto&Vírgula, começou com o testemunho na nossa co-autora Ana Vargas.

Acompanhe a partir daqui os textos publicados:

#1 Leio, logo... crio laços, por Ana Vargas (24/04/2018)
#2 Leio, logo... empilho, por Sofia Guedes Vaz (08/05/2018)
#3 Leio, logo… sonho, por Alexandre Gusmão (22/05/2018)
#4 Leio, logo… exploro, por Lucinda Afreixo (05/06/2018)
#5 Leio, logo... preservo, por Manuela Pires (19/06/2018)
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domingo, 25 de setembro de 2016

Flores, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

   Na mesma "Festa do Livro" onde fui ouvir falar José Luís Peixoto sobre a sua peça "Estrangeiras", adquiri este romance de Afonso Cruz.
     Não conhecia nada do autor a não ser que a minha mãe já lera "O Pintor debaixo do Lava-loiças" e gostara muito. A mim, foi o excerto escolhido para figurar na contracapa que me cativou; e de tal maneira que, ao contrário do que sempre faço, nem precisei de ler o resumo da história.
     Na altura em que comprei o livro estava a ler outro - e eu sou o tipo de leitora que não lê mais do que um livro de cada vez. Malgrado meu (ou, neste caso, bom) não o levara comigo por pensar que não teria oportunidade de o ler. Assim, quando tive de ficar a aguardar pela conversa, comecei a espreitar este romance novo. E fiquei imediatamente agarrada a ele. A escrita é lindíssima. Quatro folhas volvidas e começaram as dobras nos cantos, para assinalar passagens particularmente bonitas («(....) quando penso nisso, percebo aquela coisa de que cada um homem é um universo, se não fosse não caberia tanto sofrimento dentro da cabeça de cada um.»).
    Contado na primeira pessoa, é a história de dois homens, dois vizinhos, em busca de respostas para as suas vidas - presente ou passada. O primeiro, o narrador, sofre com a rotina e o fim iminente do seu casamento, enquanto se procura e tenta não perder os laços com a filha.
     O outro sofre terrivelmente com os males do mundo e perdeu todas as memórias, possuindo uma chave de cuja fechadura não se consegue recordar pendurada ao peito.
    Estes homens começam a apoiar-se mutuamente na busca de respostas quanto ao passado do segundo, o senhor Ulme:
    
    Pergunte a quem não goste dele e vai ter a descrição de uma pessoa horrível; pergunte a quem o adorava e vai ter um santo. Vai perceber que o senhor Ulme era mau, era lindo, era horrível, era divino, era mentiroso, era um boxeur virtuoso, era um cobarde.
    (...)
    São as opiniões que dão a perspetiva mais alargada da pessoa, não a confinando ao que se vê no espelho.

    É um livro muito bonito que, no entanto, parece acabar de forma algo abrupta, como se o autor não soubesse bem como continuar.

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