Prémio Nobel da Literatura 2017

Prémio Nobel da Literatura 2017

Kazuo Ishiguro

autor, entre outros, de Os despojos do dia e Nunca me deixes


sábado, 21 de janeiro de 2017

A Relíquia, Eça de Queirós (BI - Biblioteca editores Independentes)


    Contrariamente ao que disse na entrada anterior a esta, li este livro pequenino quase paralelamente ao de Maria de Belém. É o quarto livro de Eça de Queirós que leio, juntando-se aos clássicos “Os Maias” e “O Crime do Padre Amaro”, bem como a “O Mistério da Estrada de Sintra”, que escreveu juntamente com Ramalho Ortigão (todos estes livros foram lidos antes da existência deste blogue, daí que não tenha criado links para eles).

    Devo dizer que devorei os primeiros três livros. Gosto muito de Eça.
     Com “A Relíquia” foi um pouco diferente.
    Teodorico perde os pais, primeiro a mãe, no parto, e mais tarde o pai, quando ainda muito novo, sendo acolhido pela tia (a “titi”), senhora muito devota, para quem qualquer comportamento que não fosse a adoração ininterrupta do Senhor era considerado pecado. O menino cresce, então, temendo a Deus e ainda mais à titi (É necessário gostar muito da titi… É necessário dizer sempre que sim à titi!). Quando vai estudar para Coimbra, passa a gozar duma maior liberdade, desforrando-se de todos os anos de submissão mas mostrando-se cada vez mais pio na presença da tia, que nem sonha a vida de pecado que o sobrinho vive nas suas costas. Quando Teodorico descobre que a tia pretende deixar todo o seu património espalhado por gentes e instituições da Igreja, procura convencê-la que é o mais puro e mais temente a Deus que ela alguma vez encontrará, a fim de conseguir ficar com a herança. Acede, assim, a ir a Jerusalém em lugar dela, para rezar pela tia e beijar devotamente tudo em que Cristo poderia ter tocado. E, o que é mais, fica incumbido de trazer uma relíquia muito especial para a titi, algo de valor inigualável e que, de tão puro, pudesse curar todas as maleitas da senhora (que é o que Teodorico menos deseja que aconteça).

    Que lhe podia eu oferecer mais sagrado, mais enternecedor mais eficaz que um ramo da árvore de espinhos, colhido no vale do Jordão, uma clara, rosada manhã de missa?
    Mas de repente assaltou-me uma áspera inquietação… E se realmente uma virtude transcendente circulasse nas fibras daquele troco? E se a titi começasse a melhorar do fígado, a reverdecer, mal eu instalasse no seu oratório, entre lumes e flores, um desse galhos eriçados de espinhos? Ó misérrimo logro! Era eu pois que lhe levava nesciamente o princípio milagroso da saúde, e a tornava rija, indestrutível, ininterrável, com os contos de G. Godinho firmes na mão avara! Eu! Eu que só começaria a viver – quando ela começasse a morrer!

    A escrita é maravilhosa, claro. E tanto a primeira como a terceira partes do livro foram lidas com sofreguidão e muitas gargalhadas – por vezes à custa de sobrolhos alheios erguidos no comboio ou no metro. A segunda parte, no entanto, a viagem a Jerusalém, foi para mim um pouco entediante; creio que, parcialmente, por uma falta de conhecimentos bíblicos da minha parte, o que tornou uma série de referências absolutamente desconhecidas e me fez sentir perdida na história.

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