Hotel Timor, Luís Cardoso (The Poets and Dragons society)
Gostei muito de regressar a Timor através do último livro de
Luís Cardoso, Hotel Timor. Confesso que este é o livro dele de que mais gostei,
embora admita que seja porque os outros estejam menos presentes na minha
memória [Para
onde vão os gatos quando morrem? O
ano em que Pigafetta completou a circum-navegação e O
Plantador de Abóboras (Sonata para uma neblina)].
Hotel Timor tem uma escrita circular, repetitiva, com uma
toada melancólica e poética. O narrador, aquele que sonhou as histórias que o
escritor que vai a Timor para ser condecorado pelo Presidente da República
escreveu, chega também ao seu país “com atraso de uma hora ao hotel e de vinte
e um anos ao novo país.” Nesta viagem leva o propósito de se livrar dos
fantasmas que lhe povoam os sonhos depois de fugir de Timor, deixando o pai
preso e o irmão Bonifácio enterrado numa vala comum.
Quer procurar os restos mortais do seu irmão para o resgatar
do esquecimento e dar-lhe um enterro condigno.
E é o irmão morto que o recebe e o conduz num táxi, onde vive.
“Não sabia como informá-lo que veio a Timor para encontrar
os seus restos mortais e enterrá-lo num sítio que fosse apropriado. Não sabia
como lhe dizer que veio para o enterrar se o encontrou vivo, e parecia estar na
posse das suas faculdades e até falava como soía.” (pg. 181)
Bonifácio – que era pela integração - foi fuzilado pelos
revolucionários e o pai de ambos – que era da UDT - foi preso, durante a guerra
civil que antecedeu a ocupação indonésia. Ele, o narrador refugiou-se do outro
lado da ilha e depois veio para Lisboa. O pecado de o ter feito, como refere, acompanha-o,
embora obedecesse à sua mãe: “Foge que te matam!” frase repetida ao longo de
Hotel Timor
Maliana a sua amada, também vem para Lisboa e, à despedida,
a mãe sussurra ao seu ouvido para que procure pelo seu pai na metrópole.
“Recomendou que o procurasse para o obrigar a assumir o que lhe era devido,
tendo sido o responsável pela sua vinda ao mundo” (pg. 43), ecoando o início de
Pedro Páramo.
Luís Cardoso regressa ao seu país e ao seu passado - “O
passado é como a casa da infância a que regressamos de todas as vezes que nos
encontramos à beira do precipício.” (Pg. 249) para exorcizar os seus fantasmas.
Mas nesta dupla viagem, convoca outros fantasmas, como Alarico Fernandes,
Narciso Lobato e o filho, Nicolau Lobato, para além de nomes mais conhecidos.
“Sabes o que é mau no teu caso? É seres um expatriado. […]
Nunca te tinham dito isto? Aqueles que deixaram o seu país nunca escreveram
nada que valesse a pena publicar.”
Estes autores e os seus livros desmentem esta afirmação.
Admito, contudo, que possa ser difícil para um leitor português entender
algumas das personagens, das referências e mesmo de algumas expressões de Hotel
Timor. Este é o drama do escritor expatriado, mais conhecido no país onde
reside que no país em que aprendeu a falar e sobre o qual escreve. Aliás,
parece-me que o Luís Cardoso escreve sobretudo para os seus conterrâneos.
A segunda, sobre as referências sistemáticas a músicas,
livros e escritores. Fui ouvindo as músicas e fiquei com vontade de ler os
livros citados de Ismail Kadaré, escritor albanês, O General do Exército Morto
e o Palácio dos Sonhos.

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