quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Lisboa,verbo amar

Há muitos anos atrás (20,25?) o Diário de Lisboa publicou várias pequenas histórias do Mário Castrim, sob o título comum "Lisboa, Verbo amar". Recortei-as e guardei-as - pelo menos uma parte delas -. A mestria da escrita, concisa, exacta e, simultaneamente, emotiva, surpreendia e contrastava com o restante conteúdo do jornal. Imaginá-las nas nossas ruas dava-lhes outro encanto.
Para quem não as leu, para quem as leu e já esqueceu e também para quem leu e tem saudades de reler, aqui vai uma:
Tinha de fazer as pazes com a Gisela.Uma estupidez, tudo aquilo. Como é que ele pudera...Era forçoso pedir-lhe desculpa, as últimas palavras dela ocupam-lhe a memória toda:"Estou na pensão até às oito. Espero um telefonema. Senão, vou-me embora. E não te quero ver mais."
Faltava um quarto de hora. Procuro uma cabina. Aquela ao pé da estátua do Camilo Castelo Branco. Ocupada. Espero. Coitado do Camilo, o capote pelos ombros, para não encarecer a mão-de-obra.
Passaram cinco minutos. Faltavam dez. Tempo de sobra. Na minha cabeça anda o sonho de um abraço nu, palavras, carinho contra a noite, perdoa, não quis ofender-te, quero-te muito.
E o tempo a voar. espreito. Uma rapariga gesticula, aperta o pescoço, põe a mão na cara, muda o auscultador, grita:"Estás enganado, não foi nada disso. Juro-te por...Deixa-me explicar. foi assim. mas não! Preciso de falar contigo, ó homem, pelo amor de Deus, isso são coisas que se digam? Deixa-me explicar."
O monte de moedas, lá dentro, vai diminuindo. Faltam cinco minutos. A cabeça anda-me à roda. Porque raio não procurei eu outra cabina? "Um momento, grita a rapariga, um minuto só, não te peço mais nada. Vais compreender tudo."
Abre-se a porta. os olhos desvairados. As mãos a tremer.
- Por favor, arranja-me três moedas de dez tostões, arranja?
As moedas. As minhas três moedas. Falta um minuto para as oito. Aqueles olhos, as mãos a tremer...
-Pelo amor de Deus...
Volta a fechar-se a porta da cabina. Levanto a gola do casaco. Nas poças da chuva multiplicam-se os lampiões da cidade.

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